
Eu queria falar da importância das eleições deste ano com uma amiga, quando o corretor ortográfico trocou “Bel” por “pinel”. A confusão foi oportuna e esteve longe de ser mera figura de linguagem: Philippe Pinel, considerado o pai da psiquiatria, parecia o guia ideal para me ajudar a compreender o que se passa na cabeça do eleitor do Rio de Janeiro. E pus-me a pensar.
Anteontem, o jornalista Rubem Berta publicou a foto de um maço de dinheiro encontrado no carro de uma candidata a deputada estadual ligada ao presidente do União Brasil — que, embora seja de Pernambuco, disputa uma cadeira de deputado federal pelo Rio.
Na véspera, eu tinha lido sobre uma operação da Polícia Federal envolvendo o deputado federal Antônio Doido, do MDB do Pará. A PF apreendeu uma dinheirama e um celular atirado na privada.
Certamente o que foi parar na retrete não era obra do deputado paraense, tampouco o dinheiro se destinaria à compra de votos. Afinal, só um doido de verdade compraria votos secretos — que garantia teria? Mas há quem diga que isso ocorre, sim, de Norte a Sul, de Leste a Oeste.
Desde que as urnas eletrônicas surgiram e o comércio de votos foi gravemente prejudicado, desencadeou-se uma campanha maciça contra o sistema. Por trás do discurso fácil de que os votos devem ser impressos e auditáveis, esconde-se a estratégia de convencer os mais vulneráveis de que sua escolha pode ser monitorada: “Eu compro o seu voto! Pago 100 reais, mas vou conferir se está lá na urna mesmo.” Pronto! Eleição garantida e o dinheiro de volta no exercício do mandato.
Isso ajuda a explicar a ascensão de políticos que surgem do nada. A menos que milhões de eleitores, além de desdenharem do próprio poder de escolha, sejam masoquistas — outra palavra derivada do nome de uma pessoa: Leopold von Sacher-Masoch. “Masô”, para os íntimos, foi o escritor austríaco que explorou as fronteiras entre dor e prazer.
Podemos afirmar que o Rio de Janeiro é masoquista?! Será orgástico votar em Cabral, Pezão, Wilson Witzel, Cláudio Castro e congêneres? No brasão do nosso estado lê-se “Recte rempublicam gerere”, frase em latim que emoldura o Dedo de Deus e uma águia. Significa “gerir a coisa pública com retidão”. Rá! O dedo fluminense definitivamente não é o indicador de Deus: é o “pai de todos”, ereto e destacado no centro dos outros quatro recolhidos.
Para concluir — antes que me acusem de ser o porta-voz da Galeria Silvestre, que depois do sol ilumina o seu lar —, lembro de outros dois célebres franceses: Joseph-Ignace Guillotin e Eugène Poubelle. O primeiro inventou um meio drástico que fez rolar a cabeça de muitos poderosos, mas eu não condenaria ninguém a perder a cabeça. O ideal é virarmos hoje essa página triste da nossa democracia, reservando o lixo da história a quem explora o voto dos mais vulneráveis. Em Paris, no século XIX, Eugène Poubelle tornou obrigatório o uso de recipientes para o recolhimento de resíduos. Não por acaso, lata de lixo em francês chama-se poubelle…
Você sabia?! Sob o sol da Galeria Silvestre é possível saber.
Perfeito, como sempre! Especialmente para uma semana que se anuncia TENSA. Mas vamos em frente. #LulaPrimeiroTurno
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