
Eu tratava da importância do primeiro domingo de outubro com uma amiga, quando o corretor ortográfico de mensagens trocou “Bel” por “Pinel”. Só não ficou claro se a confusão derivou de uma figura de linguagem ou se a ideia era mesmo me colocar em contato com o médico Philippe Pinel, considerado o pai da psiquiatria. Afinal, ele poderia me ajudar a compreender o que passa na cabeça de 40% dos eleitores brasileiros.
Na véspera, eu tinha lido sobre uma operação da Polícia Federal (PF) contra a corrupção eleitoral envolvendo o deputado federal Antônio Doido, do MDB do Pará. Além de veículos e documentos, a PF encontrou 88 mil reais e um telefone celular que tinha sido jogado na privada. Certamente não foi obra de Sua Excelência, nem ele tinha nada a ver com a compra de votos investigada. Só um louco de verdade compraria votos secretos. Que tipo de garantia teria?
No entanto, há quem diga que isso ocorre de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Depois que as urnas eletrônicas surgiram e o comércio de votos foi gravemente prejudicado, foi feita uma campanha maciça contra a segurança do sistema. Por trás do discurso fácil de que os votos deveriam ser impressos e auditáveis, havia a estratégia de convencer as pessoas mais vulneráveis de que seus votos poderiam ser descobertos: “Eu compro o seu voto! Pago 100 reais, mas vou conferir se está lá na urna mesmo.” Pronto! Eleição garantida e o dinheiro de volta no exercício do mandato.
É difícil provar tal escambo, mas creio que explica as campanhas contra as urnas e a ascensão de políticos que surgem do nada. A não ser que o eleitor brasileiro seja masoquista — outra palavra derivada do nome de uma pessoa: Leopold von Sacher-Masoch. Masô, para os íntimos, foi um escritor austríaco que explorou a ligação entre a dor e o prazer.
Para concluir — antes que me acusem de ser o porta-voz das Galerias Silvestre —, cito outros dois célebres franceses: Joseph-Ignace Guillotin e Eugène Poubelle. O primeiro inventou um meio drástico para combater o crime — e eu não condenaria os que compram votos a perder a cabeça, literalmente. O ideal seria virarmos logo esta página triste da nossa democracia, reservando o lixo da história para quem a negocia. Em Paris, no século XIX, Eugène Poubelle tornou obrigatório o uso de recipientes para o recolhimento de resíduos. Não por acaso, lata de lixo em francês chama-se poubelle. .
E você, sabia?!