
O Cemitério Memorial da Paz de Maracanaú, Ceará, notificou 269 famílias sobre a exumação compulsória dos corpos enterrados, caso a taxa de manutenção não fosse paga. Felizmente, o administrador do campo santo não devolverá os restos mortais no endereço de cobrança. Eles seguirão para valas comuns.
Ora, por menor que seja o tamanho do Estado, pergunto-me se o erário não poderia arcar com os custos de sepultamento dos contribuintes mortos. Mas sei que não. A morte é um bom negócio e o Estado não abriria mão da tributação mesmo após o último suspiro.
A propósito, ocorrem-me duas histórias muito boas sobre cemitérios. A primeira é o romance histórico Puro (2011), de Andrew Miller. A outra, mais conhecida no Brasil, o Bem Amado (1962), de Dias Gomes, adaptada para televisão em 1973. Nelas, o Imperador Luís XVI e o Prefeito Odorico Paraguassú se empenham, um, para a remoção do Cemitério dos Inocentes do centro de Paris, o outro, para inaugurar o Cemitério de Sucupira.
Enquanto a superlotação acarretava sérios problemas de saúde pública em Paris, em Sucupira, não havia sequer um morto a enterrar. Um problema evidente de má distribuição de mortos. Uns têm demais e outros não têm nada. Realidade trágica no século XVIII, ficção cômica no século XX e constatação de que no presente, até depois da hora da nossa morte, as desigualdades se manifestam duramente. A maioria não tem onde cair morta.
R.I.P., título desta crônica, significa “rest in peace”. Na entrada da Capela dos Ossos, em Évora, Portugal, está escrito “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”. Imagino se este notável monumento mortuário fosse administrado com a lógica da Escola de Maracanaú… Tais ossos que ali estão a nos esperar, com toda certeza, não estariam em paz. Estariam apavorados, aflitos, diante dos credores, da ameaça de desmonte e da desfaçatez de se ir muito além do razoável. Despejo de despojos? Faltava! Mas negócios são negócios….
Em tempo, o amigo Paulo Roberto Monteiro de Barros observou de forma muito pertinente, como de hábito, que a inscrição RIP, presente nos túmulos da Europa desde a Idade Média, é uma abreviatura da frase latina “Requiescat in pace”. Os americanos só fizeram traduzir. Obrigado, mestre!
O Cemitério de São João Batista não deve tardar em fazer a mesma coisa. A cobrança de uma taxa anual já foi mais que ratificada pela Justiça. O curioso, porém, é que as sepulturas compradas por contribuintes de outros tempos se denominam “jazigos perpétuos”. Pelo visto, perpétuo agora tem limite de tempo e dinheiro…
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Ganância!
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