
É a segunda vez em pouco tempo que me lembro do Valter. Ele trabalhou com meu avô e o vi pela última vez lá se vão 50 anos. Ele falava de uma forma engomada e reinventava palavras e significados a partir do que ouvia. Elegante por natureza, em tom grave, Valter informava ao meu avô que as estradas estavam “pueris” porque chovera pouco — diferentemente de como estariam se tivesse chovido muito – neste caso, “lamurientas”.
Já contei essa história. No entanto, ela ressurgiu depois que li a excelente crônica de José Eduardo Agualusa do sábado passado (20/6, no Globo). Dizia ele que as incorreções e os defeitos ainda não podem ser copiados pela Inteligência Artificial, e eu arremato: quem quiser tudo supostamente certinho, que leia e ouça os textos do robô e se empobreça. Mas, dos “erros”, surge muita coisa boa, em especial quando os falantes alteram palavras “estranhas” para aproximá-las de algo que soa mais familiar.
O malapropismo é o termo literário e linguístico para o ato de substituir uma palavra por outra foneticamente semelhante, mas com significado totalmente diferente, gerando um efeito cômico ou absurdo. A origem da expressão provém da personagem Mrs. Malaprop, da peça teatral inglesa The Rivals (1775), que vivia errando as palavras de forma parecida.
Não encontrei uma versão em português, mas imagino que Mrs. Malaprop seja como a nossa Ofélia — aquela que “só abre a boca quando tem certeza” —, interpretada magistralmente por Sônia Mamede e, anos mais tarde, por Cláudia Rodrigues, contracenando com o mesmo Lúcio Mauro.
Em casa, brincamos tanto de trocar as palavras que, passado um tempo, duvidamos da forma correta. Por exemplo, para nós amigo-oculto é “miguelcouto”. Distraído, um colega meu disse que a legislação voltara a permitir a construção de prédios e casas “germinadas”. Pronto! Casas geminadas nunca mais. Só dizemos “germinadas”. Afinal, tais construções germinam em seus lotes. Faz todo sentido.
E o Hino Nacional brasileiro?! Até hoje, embolamos tudo e adaptamos as palavras mais incomuns, desde que minha avó contou que sua sobrinha, a Elvirinha, se orgulhava de ter o nome logo no início do hino: “Elvira do Ipiranga às margens plácidas…”. Portanto, parafraseando o poeta, se a palavra se anuncia bruta, mais do que depressa a boca-rota executa.
Mas é lógico que nem tudo é engraçado. Há erros que doem. Choro, ao invés de rir, com o “menas”. “A nível de” linguagem, é sofrível, como outro dia “houveram” problemas na fala de um eminente Senador da República. Mas, em muitos casos, se o ouvido falha ou não dominamos bem regras e conceitos, a imaginação pode preencher a lacuna com graça, criatividade e resolver a “questã”. Para abrir a boca ou escrever, não é preciso ter certeza. Precisamos nos lançar, saber que não somos uma enciclopédia e perseverar. Tudo se acomoda.
A propósito, quem não vibrou com o empate espetacular na partida entre a seleção de futebol da Espanha e a novata e aguerrida equipe de Caldo Verde?
Deliciosa! Me lembrei de uma história que a minha madrinha contava (ela foi alfabetizadora na Fundação Leão XIII, uma instituição católica filantrópica). Diversos de seus alunos cantavam o hino nacional com uma pequena alteração primaveril: do que a terra margarida… o que combina perfeitamente com a sequência da letra. Agora, os “houveram” da vida, já ouvi até em locutor de noticiário… E sempre me lembro que quem usava isso muito era o nosso “caríssimo” ex-presidente Fernando Collor de Mello… E lembrei também de um “francês” que usávamos muito na década de 1980 e que continha expressões preciosas como “du lombin de porc”, não entender “porre aucune”, entre outras… era ótimo porque nem os franceses nem os brasileiros entendiam nada… Obrigada, Mauro, não só por mais essa delícia, mas também por me trazer lembranças tão boas. Bjs
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Obrigado, EU!!!! Bjs
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Também adoro lombin de porc! Costeletes aussi.
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