Saí para comprar uma bateria no Edifício Avenida Central. Bateria de telefone. Se fosse o instrumento musical, seria na Rua da Carioca, mas eu teria que viajar 30 anos no tempo, pois a Carioca não é mais a Carioca. Depois de anos de estagnação e lojas fechadas, querem transformá-la em um polo de cervejarias. Se a ideia vingar, daqui a um século poderá voltar a ser uma rua tradicional. Em 2126, os transeuntes lerão: “Cervejarias A, B, C, desde 2026 / since 2026”. Será? Temos tão poucos “sinces” ou “desdes” estampados nas fachadas do comércio…

Da Câmara Municipal, onde trabalho, na Cinelândia, segui pela Avenida Treze de Maio. À minha direita, o Theatro Municipal, lindo, majestoso. À esquerda, uma sequência de lojas fechadas… “Falida desde 2019”, poderiam informar. O Bola Preta não está mais ali. Muita coisa e muita gente não estão mais ali. Lembro-me da convivência próxima do Bola com o Municipal. De um lado, pessoas bailando no salão ou às mesas aguardando um par. Do outro, balés, óperas e concertos.

Atravessei a Almirante Barroso e pisei no Largo da Carioca. Meu pai diria que eu passei pelo Tabuleiro da Baiana. É duro descrever o que meus sentidos apuraram em uma das áreas mais importantes da cidade: o estado lamentável das pedras portuguesas, o comércio ambulante caótico, a banca de jornal grande, feia e sem jornais, as centenas de motocicletas estacionadas na praça, as cadeiras de plástico espalhadas, os canteiros de terra pisada… E o cheiro de urina? Gabamo-nos de que tomamos banho muitas vezes ao dia, mas nossa cidade é malcheirosa. Ou estou dizendo um absurdo?

Entrei suado na galeria do Edifício Central. O veranico de maio se prolongou… Coisas d’El Niño. Mas o desconforto que senti não foi pela canícula démodée, mas pelo que foi feito de um lugar outrora vivo, pulsante e relevante. Lembrei-me do livro Metrópole à Beira-Mar, de Ruy Castro. Entre outras preciosidades, ele descreve aquele mesmo território nos anos 1920, durante a nossa Belle Époque.

A agência 0001 da Caixa Econômica Federal foi transformada numa megastore de bugigangas (isopores, material de papelaria e muitos eticéteras). Dezenas de pessoas estavam deitadas ao longo daquele trecho da Avenida, disputando espaço com camelôs que vendiam de tudo. Manequins enormes em uma barraca toda colorida inspirariam o diretor de cinema Almodóvar. Quando passei, uma moça saía do provador com um vestido justíssimo de oncinha. Sim, na Rio Branco de hoje é possível comprar roupas no meio da avenida, em barracas que oferecem provadores. Até esbocei um sorriso.

Atravessei a Almirante Barroso novamente, num caminho de volta paralelo, e o prédio da Escola Naval estava lá, do mesmo jeito, felizmente, apesar de termos perdido o Restaurante Navegador no último andar. Mais adiante, atrás do busto de bronze de Heitor Villa-Lobos, o Café do Theatro, outro restaurante. Portas fechadas e um casal dormindo na soleira com um cobertor, apesar do calorão.

Enfim avisto o Palácio Pedro Ernesto, a sede da Câmara. Elementos de bronze da fachada sumiram, mas o prédio continua bonito. Subo a escadaria correndo, deixo o calorão para trás. Alívio! Mas levo comigo um sentimento de profunda amargura. O Centro do Rio está irreconhecível. Boas iniciativas, como o Museu do Amanhã, na extremidade oposta da Avenida, não compensam hoje o abandono de tudo o que havia ontem.