
No trabalho, uma amiga riu quando me referi ao voo raso do Zé Maria, depois que soubemos do falecimento de um colega: “Mauro, lá em casa Zé Maria também significa morte”. E me perguntou se eu conhecia a expressão “Bernardo passou lá em casa”, que denota escassez. Por que Bernardo? Desconfiei que fosse Bernardes e conferi. Na mosca! “Bernardes passou aqui” tinha a ver com o governo de Artur Bernardes (1922-26), um período dificílimo no Brasil. Minha pesquisa revelou, inclusive, para onde os inimigos de Bernardes eram mandados: Clevelândia do Norte, no Oiapoque (Amapá) — terra do atual presidente do Congresso —, que Bernardes o tenha.
Adorei a expressão. A rigor, lembrei-me de já tê-la ouvido de um pão-duro contumaz cujo nome precisa ser ocultado, posto que está vivo. É um parente que, sempre que chega a um encontro daqueles em que se juntam as panelas, diz não ter levado nada porque o Bernardes passara por sua casa e os tempos estão difíceis. Todos compreendem e isso já virou folclore.
Artur Bernardes era representante do leite na política do café com leite da República Velha. Governou praticamente o tempo todo sob estado de sítio e, antes de ser “eleito”, viu-se às voltas com o Escândalo das Cartas Falsas. Em 1921, o jornal Correio da Manhã publicou duas cartas atribuídas a ele, então presidente de Minas Gerais e candidato à Presidência da República.
Na primeira, ele atacava as Forças Armadas e chamava o Marechal Hermes da Fonseca de sargentão sem compostura: “essa canalha (o Exército) precisa de uma reprimenda para entrar na disciplina”. Na segunda, Bernardes chamava Nilo Peçanha de moleque capaz de tudo. A falsidade das cartas foi comprovada, mas o café com leite servido por paulistas e mineiros quase azedou de vez, considerando o furdunço causado.
Talvez esse tenha sido o primeiro episódio de fake news da história a comprometer uma eleição — minhas amigas historiadoras saberão dizer. Mas, sem dúvida, sem os recursos da internet e a sofisticação da Inteligência Artificial, as notícias falsas não iam tão longe; ainda não tinham chegado ao estado da arte dos nossos dias. Quanto ao meu parente, bem, continuará nos levando o seu enorme apetite.