
As canetas deixaram de ser conhecidas pela função de escrever, assinar e rabiscar. Hoje, fala-se sobretudo das canetas para emagrecer, que nada têm a ver com as sucessoras das penas e das canetas-tinteiro. As esferográficas, que agilizaram a escrita e a popularizaram, estão a um traço do completo esquecimento. Bolígrafo! Pen! Stylo! Aquele objeto de metal ou de plástico com uma esfera de tinta na ponta subiu no cadafalso.
Digo isso depois de fechar o cada vez mais alentado caderno de saúde do jornal. Hoje, a pauta é de que, depois das canetas para emagrecer, a indústria farmacêutica lançará as que servirão para criar músculos – não os das mãos e dos dedos do destro ou do canhoto, se é que existem, mas aqueles que os apolíneos exibem sem pudor: barrigas tanquinho e bolotas localizadas no corpo, em tese, humano. Haja opulência!
Por maior que seja o sacrifício, não basta controlar o peso. É preciso que o corpo seja “delineado”. E os narizes?! Aduncofóbicos de plantão e batatofóbicos promovem um verdadeiro naricídio – uma crueldade sem limites, até no perfil do sujeito. No passado, o “nariz Pitanguy” era para poucas, mas, na atualidade, quem não tem acima da boca um nariz igual ao da cantora Anitta deve ir para o paredão.
Sobre essa invenção, haveria muito mais a escrever com a caneta convencional. Mas quem lerá, além dos meus amigos e amigas deste seleto grupo? Ler para quê? Leitura e cultura não têm mais a ver uma com a outra, pois a causa e a consequência se divorciaram de vez. Poderei comer um boi que uma neocaneta me proporcionará um biotipo de frango – ou melhor, de frangão –, pois, além de esbelto, serei atlético.
Será que essa suposta evolução da humanidade pode ser atribuída à péssima caligrafia dos médicos nas prescrições ou a um erro de interpretação da Inteligência Artificial, que certamente está por trás de mais essa?! Vaias! Vaias! Uuuuuuu!