
Em julho de 2026, escrevi uma crônica intitulada A Avenida, na qual expressava minha tristeza com o estado atual do Centro do Rio de Janeiro durante uma caminhada que fiz entre a Cinelândia e o Largo da Carioca. Ao rever um material cedido por minha irmã, Ana Maria Bandeira de Mello Magaldi, que me apresentou à nossa trisavó — a escritora Emília Moncorvo Bandeira de Mello, Carmen Dolores, objeto de seus estudos na Universidade —, achei um texto que trata da inauguração dessa mesma avenida e dos processos de reurbanização da cidade há 120 anos. Vale conferir.
CRÔNICA DE CARMEN DOLORES, pseudônimo de EMÍLIA MONCORVO BANDEIRA DE MELLO, publicada na sua coluna do jornal O Paiz, em 6 de janeiro de 1907.
“INAUGURAVA-SE A AVENIDA CENTRAL, lembro-me bem, quando caiu copiosa chuvarada sobre esta cidade e eu assisti às cenas mais extraordinárias que olhos pudessem ver em um dia de festa oficial, destinado à consagração do grande melhoramento que outorgou à nossa capital o seu retumbante diploma de centro civilizado.
Assisti à repentina transformação da cidade triunfante em um temeroso maelstrom de águas sujas, rolando furiosas pelas ruas, espadanando-se, dividindo-se em braços mais largos ou estreitos que iam desaguar em outras correntes rumorosas — dificultando pouco a pouco e afinal impedindo por completo o trânsito dos bonds e carros, que já boiavam perigosamente sobre essa superfície de oceano lamacento, marulhante, empolado, como um balanço de escaler em alto mar.
Do Mangue, só apareciam as palmeiras, emergindo da massa líquida. A Rua Malvino Reis era um rio acachoado, em que nadavam, bracejando, aos berros, garotos alegres e nus, em uma liberdade de jovens indígenas em nossas florestas primitivas. O Catete todo e Botafogo inteiro desapareciam sob um lago tempestuoso, cor de sépia, cuja perspectiva recordava a pantomima dos circos tão querida dos petizes, que se representou aqui, há tempos, com o título de São Pedro debaixo de água… E eu vi, mas vi na realidade passageiros de bonds, que voltavam da inauguração da soberba Avenida, imitarem os personagens da dita pantomima aquática, atirando-se e mergulhando nas ondas, de sobrecasaca de cerimônia e cartola, para ganharem a porta salvadora das suas casas.
Foi isto a 15 de novembro de 1905… Dessa data para cá, entretanto, as cenas que pareceram extraordinárias, tornaram-se ordinárias, comezinhas até; e toda a gente começa a achar naturalíssima a associação do magnífico progresso, tão cantado, com a deficiência dos escoamentos pluviais, a tremenda invasão das marés, todos os males, em suma, das enchentes, outrora raras, hoje sucessivas, repetidas, ao menor aguaceiro de verão. Dantes, com o declívio lógico dos encanamentos para o mar, as águas fugiam por eles; agora, com o declívio para a terra, é o mar que deságua em nossas ruas, quando crescido pelo temporal.
Ora, isto vai-se tornando intolerável! No dia 30 de dezembro, uma família que tinha um doente febril e ignorava ainda os excessos da inundação em Botafogo, viu-se aos poucos cercada pela água, que subia em proporções assustadoras em torno à sua casa toda, fundos e frente, penetrando aos cachões pelo porão. Um rio próximo, perfeitamente consentido pela higiene, verdadeira vala de lama em que moleques pescam peixes lodosos e camarões — esse rio transbordou, empolou, misturando a sua cachoeira furiosa às enxurradas da rua.
E às oito horas da noite, nesta rica cidade em que reboam a todos os instantes os inúmeros sinos da réclame do engrossamento, glorificando melhoramentos, prosperidades, belezas, teve essa angustiada família de transportar o seu doente, que saíra de um acesso de febre, pelo meio das águas espumantes que remoinhavam à roda do seu corpo enfraquecido, para uma casa vizinha, mais alta.
Foi uma marcha tétrica, com o doente a tremer, absolutamente como se habitasse às margens inóspitas e alagadiças de algum rio do interior mais atrasado, e não o bairro aristocrático do Botafogo, pagando uma casa cara, impostos, todos os ônus da civilização. De outros prédios, vinham também gritos de terror. Carroças de bombeiros apareceram, por fim, recolhendo gente assustada, que pedia socorro.
E isto sucedeu outro dia, ia-se reproduzindo ainda quarta-feira, talvez já se tenha repetido outras vezes, quando lidas estas linhas — e o remédio contudo não chega, nunca talvez chegará… O doente que foi obrigado a furar a enchente, para se evadir, piorou muito, como era de esperar. E a higiene, de quem se reclamou, com urgência, o saneamento dos porões inundados, nem de longe acudiu…
Assim ficamos, assim havemos de ir vivendo, senão morrendo, a respirar miasmas de lamas pútridas, acumuladas embaixo das moradias. Mas que importa, não é? A nossa Avenida é uma pura glória; os nossos palácios, os nossos largos ajardinados são maravilhas. Fonfonam os automóveis, prepara-se um teatro colossal de mármore e ouros, para ficar vazio e contentar platonicamente a nossa ânsia de ostentação, que mais podemos desejar, meu Deus?
Venham inundações de semana em semana, impedindo o trânsito público, carregando com os cacaréus da população mais pobre, ameaçando a vida de muita gente, que tais males jamais hão de alterar a beatitude dos astros superiores. Somente, acontece isto: eu, que ainda gracejei em 1905, eu não gracejo mais em 1907. Ah! Certamente que não. Longe de troçar, eu retenho antes a minha pena, que treme sob o acicate da mais legítima e justificada das indignações. Mais glissons…”
Carmen Dolores: A Semana (1905-1910) [e-book] / [editor] Alvaro Santos Simões Júnior — Campinas, SP: FE/UNICAMP, 2025.823 p. — (Coleção As Mulheres no Jornal O Paiz; 6).