Desta vez, decidi poupar meus amigos de um novo encargo.  Um manuscrito, duas cópias e duas editoras que se dispunham a recebê-las. Coisa raríssima, pois até quem é do ramo lê cada vez menos…

A primeira cópia foi despachada eletronicamente para a Editora X, enquanto a outra seguiu para a Y Editores Associados. Cruzei os dedos por uma recepção razoável, pois, definitivamente, não vou dar trabalho para Murilo, Sonize, Cristina e Rosa.

Parece que vai funcionar… X já respondeu: “Estimado Sr. Mauro, gratos por confiar-nos a sua obra para avaliação. Em até dez dias úteis, nosso conselho editorial retornará com uma resposta.” E as saudações finais de estilo.

Oba! Outra mensagem na caixa de entrada. De Y! Cliquei e li: ” Estimado Sr. Mauro, gratos por confiar-nos a sua obra para avaliação. Em até dez dias úteis, nosso conselho editorial retornará com uma resposta.” E as saudações finais de estilo. 

Achei meio estranho, as mensagens eram muito parecidas. Teria eu enviado as duas cópias do manuscrito para a mesma editora? Não! Analisando bem, pelo portfólio enviado após as respostas, eram, sim, duas empresas diferentes e muito bem-sucedidas, com parques gráficos próprios e muita sofisticação.

Mantive o otimismo e aguardei a etapa seguinte. Os dois grupos editoriais se debruçariam sobre o meu manuscrito e emitiriam um breve parecer. E me pus a idealizar a nova tentativa de me lançar. Quem sabe os dois esboços de um novo livro, colocados em duas garrafas e lançados em mares distintos alcançariam os destinatários certos? Afinal, o destino é inexorável!

Eis que dez dias depois, numa manhã fria e chuvosa, uma nova mensagem  adentrou a minha caixa do email. Era de X!!! Alvíssaras! “Papai, mamãe, Toninho! Venham todos!” – recordei uma passagem da infância que ninguém vai entender… Foco, Mauro! Qual teria sido a nota? E, MB, B, R, I ou NRA? Excelente, Muito Bom, Bom, Razoável, Insuficiente, Nenhuma das Respostas Anteriores? Quanta emoção!

Saiba que não recebi apenas uma resposta muito positiva. Em anexo próprio, havia uma análise alentada do manuscrito. Que chique! Que honra! E novamente: “Papai, mamãe, Toninho! Venham todos!”

Mal me recompus da ótima acolhida de X, Y saltou triunfante dentro da mesma caixa de entrada. Unbelievable! Incroyable! Inacreditável! Busquei um espelho para confirmar se ele refletia a minha imagem ou a de Paulo Coelho e comecei a gastar por conta!

Em que país morar? Não tenho o caráter do Leonardo Padura para fazer sucesso e permanecer em Cuba, experimentando a falta de luz e o boicote estadunidense. Uma casa confortável no Lago de Como? Uma quinta no Vale do Douro? Sem contar, óbvio, o pied-à-terre em Paris. Nos EUA, não pisarei enquanto lá estiver “Tramp” e sua gangue. Enfim… 

Mas, como diria o “politicamente irretocável” Moreira da Silva: Etelvina me acordou.

– Olha só, Mauro, abaixo da “decisão do conselho editorial”.

– O que foi, minha filha?

– Os custos do seu investimento! E você não estranhou que os tais pareceres sejam idênticos?! X e Y? Rá! É a Inteligência Artificial, seu otário!

Que tristeza… Meu mundo caiu e lembrei-me de Maysa… Lá se foi o meu “estudiô”… Mas não! Nada disso! Apenas acordei de um sonho esquisito. Tenho o enorme privilégio de, todos os domingos, ser lido e de receber generosos comentários, boas críticas e aquele polegar apontado para cima irresistível, sensual, que opera milagres. Obrigado, amigas e amigos do mundo real! IA é o cacete!