O que me bateu forte hoje, não foi propriamente ter assistido ao filme de Júlio Bressane, de 1969, produzido à sombra do AI-5, no ápice da perversidade da ditadura militar que alguns descerebrados no Brasil ainda louvam. Foi lembrar-me do seu título: Matou a Família e Foi ao Cinema.

Múltiplas imagens, raciocínios diversos, fotos e manchetes de jornais, associo a esses dois atos sucessivos: matar a família e ir ao cinema. Poderia ser matar o irmão e ir ao trabalho, matar o vizinho e ir à praia, matar o adversário e ir à igreja… Atenho-me à última hipótese, à banalidade do fervor religioso misturado com a política de uma década para cá no Brasil. Ou a um aparente fervor.

Vejo fotografias de sujeitos de joelhos e olhos fechados em louvor, momentos antes de receberem o suborno deles de cada dia ou de brindarem com seu corruptor. É a extrema hipocrisia que já não nos causa mais surpresa. Mas a coisa se torna mais grave e triste quando a corrupção da alma e o fanatismo se alastram entre as famílias e nos grupos de amigos e de trabalho. O sujeito comum destroça o companheiro, mata a mãe e vai para a igreja. Lá, fazer o quê?

Amar ao próximo como a si mesmo, humildade, perdão das ofensas alheias e das próprias, auxílio aos necessitados, comunhão com o divino e outras ações prescritas e valores elevados a seguir… Onde? Apenas encerrados nos templos? E fora deles?

Muitos dizem que rezam por seus inimigos, que pedem pelos pobres e pelos aflitos e clamam por perdão pelas suas faltas. Mas nada de efetivo passa dali — de dentro da igreja, da sinagoga, do centro espírita, da mesquita, seja qual for a espécie de templo. Prefiro crer nos ateus honestos e solidários.

Fora das quatro “paredes sagradas”, os falsos “pios” mantêm-se apegados ao dinheiro, ao poder, aos seus desvios; continuam a humilhar, a caluniar, a negar ajuda a quem precisa e a se locupletar com vantagens indevidas. Suas preces são falsas. Dissimulam covardemente. Matam a navalhadas o pai e a mãe e depois vão ao cinema.