
Para meu avô, os jornais do rádio e da televisão eram os “jornais falados”. Assim os designava. “Vai começar o jornal falado”, dizia. Hoje, eu digo: como eles falam! Na minha opinião, muito além do razoável, pois não dão apenas a notícia e comentam. Repetem tudo à exaustão.
Assistir à GloboNews me dá uma ansiedade enorme. É como estar à beira do gramado vendo o meu time perder de goleada e, por ordens médicas, devo desligar e desligar-me. Aliás, nem vou esperar a segunda-feira para me abster do mau hábito! Assim como há décadas decidi nunca mais colocar um cigarro na boca, retomarei a prática de me informar apenas através dos “jornais mudos”.
O problema é que só resta um deles impresso no Rio de Janeiro e nem banca de jornal existe mais. Fazer o quê? Recorrer à internet – o que requer muita vigilância, pois pode ser um meio ótimo ou péssimo. É a história da diferença entre o remédio e o veneno: a dose.
Podemos ler o jornal que quisermos. Todos estão ao nosso alcance, isto é – ao alcance de quem não leva “choque” no teclado do computador. Mas foi no Globo impresso que li, hoje, uma reportagem espetacular: uma mulher de 38 anos, presa por dar golpes, fingindo ter 12 anos. De idade!
É isso mesmo. Na linha do caso absurdo do ex-juiz de São Paulo, Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield. E bastou ler a manchete para eu me lembrar da Mulher de Trinta Anos, de Balzac. Como reagiria o escritor francês do século XIX diante de tal notícia?
É fato que está cada vez mais difícil acertar a idade das mulheres. Hoje, Balzac certamente teria que repensar o seu romance. Tenho amigas de 70 que poderiam dizer que têm 20 ou 30 anos a menos. Mas uma mulher de 38 fingir ter 12 anos?!
Quanto a mim, jamais conseguirei esconder a idade. Seria preciso dizer o impensável, que, por exemplo, eu não me divertia com Rin-Tin-Tin na TV, que não falsifiquei minha identidade para assistir à estreia de Tubarão no cinema, que não era um dos 156 mil torcedores no Maracanã na vitória do Flamengo sobre o Atlético Mineiro em junho de 1980.
Como não bastasse, a dificuldade para recuperar a minha senha no site Gov.Br. também denuncia a minha juventude. Eu a esqueço frequentemente e não adianta meu amigo Murilo dizer que é fácil, que basta seguir o passo-a-passo: “aproxime a tela do celular, afaste a tela do celular, aproxime a tela do celular, afaste a tela do celular, aproxime a tela do celular, sessão encerrada!”