
Eu era o filho caçula que precisava existir diante dos irmãos mais velhos, e caiu em minhas mãos um livreto de meu pai: As Catilinárias, de Cícero. No lado esquerdo das páginas, o texto original em latim; no lado direito, a tradução em português.
Eu tinha uns 10 anos, achei aquilo o máximo e comecei a lançar algumas frases em latim. Precisava me provar um adulto erudito:
— Quousque tandem, abutere, Ana Maria, patientia nostra? — Quousque tandem, abutere, Duda, Bob e Gico, patientia nostra?
Ora, até quando meus irmãos abusariam da minha paciência?!
Mas as gargalhadas frustravam o meu objetivo. Eu continuaria sendo um apêndice divertido naquela grande família — e décadas de terapia não me fizeram crer no contrário. Até hoje, com duas honrosas exceções, nenhum familiar lê os meus textos, dentre os quais, os meus discursos de estadista romano.
E por que penso nesse trauma justamente agora? É óbvio!
Colhi o episódio cômico do passado a partir de um sentimento presente de profunda indignação e impaciência. No caso, sobre as manobras golpistas e diversionistas do Pretório Excelso: aquela instituição empolada que insistimos em defender por já ter prestado bons serviços no passado, mas que está enredada na soberba e na luxúria de boa parte de seus integrantes.
Criou-se um clima péssimo no supremo poleiro. De certa forma, infantil no mau sentido e, pior, com reflexos muito danosos para as eleições de outubro. Os pavões togados estão se comportando como urubus. Sem teto nem quaisquer outros limites, sobrevoam o país provocando pânico, quando deveriam pacificar os ânimos.
Volto às Catilinárias.
No ano 63 antes de Cristo, por meio de informantes, Marco Túlio Cícero descobriu uma conspiração e agiu rápido. Subiu à tribuna e denunciou um golpe de Estado planejado pelo senador Lúcio Sérgio Catilina, que perdera as eleições para cônsul. A ideia dos golpistas era assassinar governantes, queimar a cidade e derrubar a República.
Em um de seus célebres discursos, Cícero proferiu a “minha” frase: “Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?”, enquadrando o traidor a ponto de fazê-lo fugir de Roma. Li que, em discursos posteriores, Cícero alertou o povo sobre os aliados de Catilina que continuavam infiltrados. Interceptou provas da nova traição e as apresentou ao público, garantindo o apoio de todos. Suas falas são saudadas como exemplos emblemáticos da arte da oratória e da política.
Justamente o que planejei fazer com meus irmãos cruéis, que, entre outros malfeitos, me expulsavam do quarto quando o assunto era supostamente censurável. Seriam conspiradores? Estariam bebendo o uísque do meu pai? Não posso crer! Quanto às aves de rapina travestidas de pavões, haja paciência!
…
P.S.: A história sempre nos ensina muita coisa. A sabedoria popular também. Chega de tentar salvar os afogados com um abraço intuitivo. Matará a todos — e, convenhamos, mais do que boias, eles têm asas.