
Numa semana em que dois pavões com poderes supremos debocharam do país e comprometeram ainda mais a nossa paz, lembrei-me do meu primeiro emprego – em geral, um marco importante na vida das pessoas comuns.
Foi numa firma de engenharia em São Cristóvão. Eu tinha 17 anos e acabara de passar para a faculdade. O processo de seleção foi duríssimo: meu pai era sócio e o meu salário inicial foi estipulado em zero cruzeiro.
Uma experiência e tanto, apesar do período de vacas magras, com possibilidades remotíssimas de crescimento. Mas a empresa dispunha de uma ótima reputação técnica e eu me divertia com os colegas — um deles, servente do laboratório de ensaios de concreto, o Índio.
Já contei a história do Índio muitas vezes, mas acho que nunca a escrevi. De fato, era descendente direto de indígenas. Vivia na rua e não tinha um nome formal. Era chamado de Come Rato, até que um amigo de um primo meu resolveu ajudá-lo. Arranjaria para ele um emprego, mas seria preciso ter documentos, a começar por uma carteira de identidade.
E lá foram essa boa pessoa e meu primo com o Índio a um cartório. Lá chegando, o que fazer? Ele não era deste planeta! Nada dizia sobre seu passado e reagia a qualquer pergunta com um sorriso.
Abreviando: o tabelião perguntou: “Come Rato, escolha um nome. Como você quer se chamar?”. E foi aí que, segundo meu primo contou, o Índio se iluminou para responder com todas as letras: “Meu sonho, doutor, é me chamar Otávio Ferreira da Silva”. E assim foi. Otávio Ferreira da Silva estreava no nosso mundo ao ser registrado.
Índio tinha uma postura altiva, elegante; só não admitia calçar qualquer sapato e era difícil obrigá-lo a vestir uma camisa. Uma figura! Volta e meia, recebíamos moças no escritório que iam até lá para se candidatar a um emprego por recomendação do Sr. Otávio.
Ele oferecia oportunidades para as empregadas do Supermercado Pague Menos do Largo da Cancela: “Lá vocês não trabalharão aos sábados e domingos”. Note que, há 40 anos, Índio já defendia o fim da cruel escala de trabalho 6×1. Portanto, na realidade, convivi com um cacique; e dos melhores, sem toga e sem tostão: o Cacique Otávio Ferreira da Silva. Que Tupã o tenha.
…
P S Hoje, 6/9/26, faltam 27 dias para escolhemos os nossos caciques. Que os deuses iluminem o nosso caminho.
Prazer em conhecê-lo, Otávio. Você deve ter sido uma figura adorável. Obrigada, Mauro, por mais esse personagem delicioso
CurtirCurtido por 1 pessoa
Um dia, colegas nossos disseram ao Índio que a Funai tinha retido o seu salário. O coitado acreditou e começou a chorar… rsrs Uma figura!
CurtirCurtir