
Ora o desafio lançado é pedir que nos coloquemos no lugar do outro, ora é afirmar que, no lugar dele, faríamos tudo totalmente diferente – e melhor, lógico. Será? É a questão que me coloco após o devaneio desta manhã, no percurso de casa para o trabalho.
Acomodado no banco mais alto da indefectível linha 410, à janela, fiz o meu primeiro julgamento quando vi um motoboy avançando o sinal. Que absurdo! No seu lugar eu não faria isso. Mais adiante, foi a vez de o motorista do ônibus dar uma fechada num carro bacana que forçava a passagem. Eu não faria isso. E a coisa foi aumentando, as sinapses tornaram-se mais complexas, muitas vozes interiores se manifestaram – além do meu anjinho e do meu diabinho, sempre antagonizando: um no ombro direito, outro no esquerdo.
Detalhe: na véspera, eu tinha pedido ao meu chefe para trabalhar um dia por semana de casa.
– Ora, Mauro, sei que você faria tudo até melhor, mas coloque-se no meu lugar. Se liberar você, o resto da equipe vai reclamar.
Eu quis dizer que gostaria de estar no lugar dele ao abrir o contracheque, cheio de penduricalhos, mas a prudência me conteve e está explicado o devaneio de hoje.
Fechei os olhos e me vi no lugar de Martha Argerich, acompanhada de uma orquestra, caminhando para os acordes finais do Concerto nº 3 de Rachmaninoff. Imaginei os aplausos. O Teatro viria abaixo, tamanha a ovação. Em seguida, imaginei a sensação de João do Pulo no seu memorável salto triplo ou de Rudolf Nureyev saltando e girando no ar no ballet O Corsário. Quantas boas imagens… Quanta boa adrenalina!
E estar no lugar de Ferran Torres na final da Copa do Mundo?! Imagine a sensação de ter feito o gol da vitória da Espanha. Indescritível! Abro os olhos. Já estamos na Praça Paris, o ônibus vai virar no Passeio Público. Hora de dar o sinal e cair na real – mas não sem antes concluir que não basta estarmos no lugar do outro: temos que ter as suas ferramentas e os seus talentos.
Eu só saberia tocar O Bife no Steinway de Martha; cairia de bunda na caixa de areia do João do Pulo; torceria o joelho no palco de Nureyev; erraria a bola diante do goleiro da Argentina. Mas, sem a menor sombra de dúvida, no lugar do meu chefe, não daria um – daria dois dias de home office.
Ah, Mauro, muito obrigada por mais essa delícia! Lembro bem do Nureyev entrando no palco com aquele salto fabuloso… Vi no Maracanazinho… Adorei seus devaneios. Pelo menos pra isso os ônibus servem…
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Rsrsrs O 410 serve para alguma coisa, quando pára no ponto… Bj
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