Como bisneto de libanês, de espanhola e portugueses, descendente de meio mundo, não posso desejar viajar para um país que, além de reprimir impiedosamente os imigrantes, desdenha da diversidade. 

Não confundo governos com nações, mas, nos EUA, os limites da diplomacia, da ética e dos direitos humanos têm sido diariamente ultrapassados sem uma reação interna efetiva.

E o que pode ser feito, além de expressar revolta? Eu começaria por fazer o oposto do que acabo de ver a caminho do trabalho. Para obter um visto de entrada, dezenas de pessoas fazem fila diante do prédio do Consulado do país governado por “Tramp”, no Centro do Rio, ironicamente localizado na rua que leva o nome de México, país constantemente hostilizado pelo vizinho rico.

Se não for por obrigação profissional ou outro motivo de força maior, por que aquelas pessoas se submetem desde o início a um tratamento desrespeitoso e a uma série de obstáculos para viajar sem qualquer segurança de que não serão perseguidas e deportadas?  

A dificuldade para obter o tal visto sempre existiu, mas a diferença crucial é o que temos assistido diariamente contra um contingente enorme de pessoas que lá vivem, todas elas vítimas de um organismo estatal truculento que atende pelas iniciais ICE.

Aliás, a ICE dos EUA já pode ser admitida na galeria de siglas vergonhosas da história, como SS, CIA, KGB, MOSSAD, SNI, PCC, CV, MI6 (sem o glamour de 007)… Até FMI não me soa muito bem… Ou do bem. Portanto, estou certo de que o California Dreamin pode esperar. Nós, de GIG ou de SDU, sempre teremos CDG e ORY com que sonhar. 

Até lá, enquanto o american people não reagir e puser fim à Era “Tramp”, seguirei repetindo o mantra criado por uma das mentes norte-americanas mais geniais, escritor versado em temas macabros, Edgar Allan Poe: nevermore, nunca mais, nevermore. NYC? Nevermore! Outono na Nova Inglaterra? Nevermore! Disneylândia? Nevermore. Holidays on ICE? Never, never, nevermore.

P.S. GIG, SDU, CDG e ORY são as siglas dos aeroportos do Rio de Janeiro e de Paris. Faço alusão à célebre frase dita por Rick a Ilsa ou por Humphrey a Ingrid, no filme Casablanca.