Na edição de dois de abril do Globo, li uma reportagem sobre os navios-residência, opção cada vez mais adotada por aposentados norte-americanos como sua última morada. Eles se desfazem dos bens em terra firme e compram um bilhete vitalício para viverem a bordo, navegando pelos sete mares. Até o fim. 

Ao ler a matéria, lembrei-me de cara do maravilhoso filme de Federico Fellini, ‘E la Nave Và’, da última viagem da cantora lírica Edmea Tetua em um transatlântico, o Gloria N. Porém, ela já estava morta. Eram suas cinzas a viajar pelo Mediterrâneo de plástico de Fellini. Mas não é hora de antecipar ou idealizar funerais. O caso aqui é avaliar uma alternativa de vida pós-aposentadoria.

Depois que alcançamos determinada idade, costuma-se dizer que dobramos o Cabo da Boa Esperança. A rigor, no sentido literal, se estivermos na costa da África do Sul, navegando na direção das Ilhas Seychelles ou de outro paraíso na Terra é sinal de extrema prosperidade. Mas o sentido figurado de cruzar o famoso cabo sem qualquer glamour é o mais popular.

Então? Como administrar o restante das nossas vidas? Flutuando? Fugir do caos das cidades, do trânsito infernal de automóveis e da poluição sonora são pontos positivos para nos mudarmos para um navio-residência, sem dúvida. O balanço do mar pode incomodar no início, mas é questão de hábito. Afinal, depois de certa idade, lidar com a falta de equilíbrio torna-se uma especialidade.

O problema é que meu hemisfério cerebral pessimista não me dá trégua:

“E se o navio passar pelo Estreito de Ormuz ou batermos num iceberg?”

Este meu lóbulo é incorrigível!  Os mares e oceanos ocupam 70% da superfície da Terra e ele me vem com o fatídico Estreito! Não somos petróleo. Ainda! Além do que, a humanidade aprendeu com a tragédia do Titanic.

“Você certamente se esqueceu do naufrágio do Costa Concórdia e do và da bordo, Schetino! Em 2012. 100 anos depois do Titanic!”   Finjo que não ouço.

O navio-residência é como um hotel cinco estrelas flutuante. No café da manhã, tem mamão cortadinho, bufê de pães, queijos, frios, sucos… Tudo incluído! E você pode consumir à vontade, caso não esteja acima do peso ou com o colesterol e a glicemia muito altos. Bons vinhos, cervejas e bebidas destiladas de qualidade também podem ser consumidos sem custos extras! Se os triglicerídeos não estiverem nas alturas e você tiver um bom fígado, mergulhe de cabeça!

É… Lembrei-me de minha avó Aurora… Ela lançou âncoras no Grajaú e dizia que só sairia de lá para o Caju. Cumpriu a promessa. Portanto, acho que devo sepultar a ideia do “barco doce barco”, de morar num belo navio e projetar uma velhice menos previsível, menos “Grajaú-Caju”… Afinal, o valor das aposentadorias da maioria de nós indica mesmo a rota do Cabo das Tormentas… Mas, e a Esperança? Sempre me disseram que morreria depois de mim.