
Éramos 60 alunos na sala do curso pré-vestibular, aguardando a primeira aula de História dos Estados Unidos. O tema seria Guerra da Secessão, com o professor Manoel Maurício de Albuquerque. Do fundo da sala, eu o vi entrar, franzino, discreto, mas com sobrancelhas incomuns que me lembraram um samurai.
Como o falatório não diminuía, com a maior singeleza, aquele que passaríamos a chamar de Maneco disse: “Hoje, vocês não querem aula. Volto amanhã”. Como assim?! Estávamos acostumados ao aluno ter que sair de sala. Era impensável o professor se colocar para fora, e sem qualquer alarde.
Nas aulas seguintes, o respeito se impôs naturalmente e ele pôde falar. Privilégio nosso! Maneco irradiava sabedoria e também nos fazia dar gargalhadas homéricas com as suas provocações. Por vezes, ditava dicas para as provas que se aproximavam, mandando que colocássemos uma seta à margem do livro, que ele pronunciava “sêta”. Com irreverência, aliviava a tensão daquela nossa fase da vida. 1979 não foi um ano qualquer. Estávamos descobrindo o mundo adulto e nos redescobrindo; além do quê, ainda vivíamos sob a ditadura militar.
No Colégio de Aplicação da então UEG, onde fiz o ginásio e o científico, de 1973 a 1978, outro professor extraordinário, Luiz Antônio de Cassio, de Língua Portuguesa e Literatura, não impunha a bibliografia convencional da época. Lembro-me de ter lido, impressionadíssimo para meus onze anos, Seara Vermelha, de Jorge Amado. Ele também não dava muito destaque ao ensino das orações subordinadas aborrecidíssimas. Líamos, escrevíamos, interpretávamos textos e fazíamos teatro. Creio que a fórmula deu certo.
Teria muito a escrever sobre os professores da minha vida, como outra, a professora Maria da Conceição Tavares, do meu fugaz curso de Economia. Ela conseguia falar de Economia com clareza, credibilidade e paixão. E o que dizer das minhas professoras de Francês?! A primeira e a última se chamavam Heloísa. Que saudade! Mas para escrever sobre as aulas de Francês vou precisar de mais linhas. Não caberiam nesta crônica, não caberiam em um parágrafo… Como diria o rei Henri IV, velho conhecido da derradeira Heloísa, a Mme. de Nioac, minhas mestras de Francês valem bem uma missa…
Adorei! Manuel Maurício foi uma das vítimas “indiretas” da ditadura, nao foi? Heloísa de Nioac foi minha professora de prática de ensino na Sta Úrsula…
CurtirCurtido por 1 pessoa
Sim, foi vítima, sim. Depois, voltou à universidade. Soube que morreu dentro de uma livraria… Heloísa de Nioac foi minha professora no Nancy I e II. A primeira Heloísa, no CAp, é conhecida sua, Brambati.
CurtirCurtir
😪
CurtirCurtir