Foto de Sebastião Salgado

Éramos 60 alunos na sala do curso pré-vestibular, aguardando a primeira aula de História dos Estados Unidos. O tema seria Guerra da Secessão, com o professor Manoel Maurício de Albuquerque. Do fundo da sala, eu o vi entrar, franzino, discreto, mas com sobrancelhas incomuns que me lembraram um samurai. 

Como o falatório não diminuía, com a maior singeleza, aquele que passaríamos a chamar de Maneco disse: “Hoje, vocês não querem aula. Volto amanhã”. Como assim?! Estávamos acostumados ao aluno ter que sair de sala. Era impensável o professor se colocar para fora, e sem qualquer alarde. 

Nas aulas seguintes, o respeito se impôs naturalmente e ele pôde falar. Privilégio nosso! Maneco irradiava sabedoria e também nos fazia dar gargalhadas homéricas com as suas provocações. Por  vezes, ditava dicas para as provas que se aproximavam, mandando que colocássemos uma seta à margem do livro, que ele pronunciava “sêta”. Com irreverência, aliviava a tensão daquela nossa fase da vida. 1979 não foi um ano qualquer. Estávamos descobrindo o mundo adulto e nos redescobrindo; além do quê, ainda vivíamos sob a ditadura militar. 

No Colégio de Aplicação da então UEG, onde fiz o ginásio e o científico, de 1973 a 1978, outro professor extraordinário, Luiz Antônio de Cassio, de Língua Portuguesa e Literatura, não impunha a bibliografia convencional da época. Lembro-me de ter lido, impressionadíssimo para meus onze anos, Seara Vermelha, de Jorge Amado. Ele também não dava muito destaque ao ensino das orações subordinadas aborrecidíssimas. Líamos, escrevíamos, interpretávamos textos e fazíamos teatro. Creio que a fórmula deu certo.

Teria muito a escrever sobre os professores da minha vida, como outra, a professora Maria da Conceição Tavares, do meu fugaz curso de Economia. Ela conseguia falar de Economia com clareza, credibilidade e paixão. E o que dizer das minhas professoras de Francês?! A primeira e a última se chamavam Heloísa. Que saudade! Mas para escrever sobre as aulas de Francês vou precisar de mais linhas. Não caberiam nesta crônica, não caberiam em um parágrafo… Como diria o rei Henri IV, velho conhecido da derradeira Heloísa, a Mme. de Nioac, minhas mestras de Francês valem bem uma missa…