Andar pelas calçadas do Rio de Janeiro não é para qualquer um. Pedestres devem evitá-las — só não sei como. O pior é que a beleza da cidade e a curiosidade de quem anda por aqui são armadilhas: no Rio, admirar as pessoas e a paisagem enquanto se caminha é arriscado, e lembro-me com profunda tristeza da queda que levou o nosso maior pianista, Nelson Freire.

As calçadas revestidas de pedras portuguesas, então, são as mais perigosas, e não se trata apenas do conforto e da segurança do caminhar. São — ou seriam — lindas. As águas do Tejo, em Lisboa, foram transpostas para a nossa orla como as ondas do mar e, em Copacabana, compõem um conjunto belíssimo com os painéis de Burle Marx nos canteiros centrais da Avenida Atlântica. Mas esse é o lado bom. Muito bom.

O problema é a eterna falta de conservação! Se os desenhos não estão cheios de lacunas — leia-se: buracos —, as pedras estão mal dispostas, não foram colocadas por calceteiros profissionais, o que enfeia os passeios ou os deixa repletos de arapucas. Em Vila Isabel, essas pedrinhas pretas e brancas prestam homenagem ao genial Noel Rosa com a reprodução de partituras musicais. Mas ultimamente o samba tem atravessado e a melodia desafinado.

Chego ao final desta crônica depois de ter caminhado pela Cinelândia. Varri o trajeto com o olhar fixo na ponta dos meus pés, privado de desfrutar a ambiência e a arquitetura ao redor. Mas, ao desviar os olhos do chão por instantes, me dei conta de uma curiosidade que nada tem a ver com a qualidade do calçamento: você já sofreu uma “fechada” de pedestre? Comigo é frequente. Tenta-se ultrapassar pela direita e o transeunte bloqueia a passagem; tenta-se o lado esquerdo e, novamente, vêm aquelas costas — para não baixar o nível — encurralando quem tem pressa. Enfim, nós, bípedes, precisamos urgentemente de asas!