Já não aguentava mais ver minha amiga triste porque sua família a tinha condenado ao banimento. Só porque ela votou em Lula e não acreditou nos parentes que diziam que ele é o diabo em pessoa; que Alckmin seria espião da KGB e que Janja… ora, é melhor nem repetir o que a família da amiga disse sobre a Primeira-Dama. E mais: que ela falou mal do Tramp, que, segundo esses parentes, salvaria o Brasil se o Fujão tivesse sido eleito.

Tadinha. Continua deprimida. Acreditava que outros laços de família fossem mais importantes, como a história de superação dos seus pais, pilares dessa bonita família. Segundo me disse, a visão equivocada sobre a realidade do país seria menor.

Decidi agir! Pus-me diante do computador para escrever-lhes uma carta que pusesse fim a esse desvario, à cisão estúpida, alimentada por gente manipuladora e adicta da mentira. Seria uma cartada difícil, que poderia reconciliar as partes ou afastá-las de vez.

A ideia foi a seguinte: eu me autodeclararia com uma doença terminal. Sei que é pecado, mas minha mãe aprovaria. Diria que a minha intenção era nobre. No final da carta, eu pediria que me concedessem um último desejo: a reconciliação de todos, de todas as correntes políticas e, em especial, deles com a minha amiga querida. Inseguro sobre como desenvolveria o texto, decidi recorrer à Inteligência Artificial.

— Bom dia, IA. Escreva uma carta à família de uma amiga revelando que estou com uma doença gravíssima e que tenho, no máximo, três meses de vida. Aproveite para me tecer alguns elogios, comparar-me ao Mahatma Gandhi e ao apóstolo Paulo. Mas sem exageros! A carta precisa soar verdadeira, magnânima e humilde ao mesmo tempo.

— Eu não posso escrever uma carta com esse teor. Tente outro tipo de abordagem. Isso não é ético.

Que saco! Minuta golpista o raio IA faz sem pestanejar! Autodeclarar-se o “verdadeiro presidente eleito” também. Mas deixe estar, que eu ainda sei escrever uma carta com emoção:

“Prezada Fulana,

Escrevo estas mal traçadas linhas para abordar um assunto delicado. Calma, não se trata de política! Ontem, fui buscar os resultados de exames que supunha rotineiros, mas a coisa é grave. O médico me deu três meses de vida, no máximo. Estou conformado, mas muito aflito com Orlandina, sua irmã. Vocês precisam voltar a se falar! Flávio perdeu — teria sido uma catástrofe, é verdade —, fugiu, é pé-frio, deu azar para o Tramp, mas o amor entre vocês é muito maior! Portanto, como um último desejo, antes de perder a consciência e ser guiado pelo Zé Maria desta para a outra, peço que converse com a família toda, telefone para sua irmã e a incluam no amigo oculto de Natal. É tudo o que peço! E não chore por mim nem se dê ao trabalho de enviar flores na ocasião da minha cremação. Adeus!”