Aquarela assinada em 1950 por Villaça. Herança que recebi dos meus pais.

Hoje, primeiro de novembro, celebramos todos os santos. Amanhã, celebraremos os mortos, santos ou não. O tempo úmido e o cheiro de flores arrancadas dos pés são característicos do Dia de Finados. Eu era criança quando ia com minha avó Aurora ao Caju, prestar homenagens ao avô Raul. Meu pai, sem sucesso, tentava convencer a mãe a fazer a visita na véspera, pois não haveria uma multidão com o mesmo propósito. Eu adorava o programa.

Numa das esquinas principais do Cemitério São Francisco Xavier havia — e deve continuar por lá — um grande avião de bronze, mas eu não o associava a nenhuma tragédia aérea. Afinal, ele me parecia bem conservado. Mais adiante, em outro mausoléu, um quepe e uma espada talhados em uma laje de mármore negro, em frente da qual eu prestava continência. Ali devia estar um marechal. Sim, porque os marechais são mais importantes; eles mandam nos generais.

Ao chegarmos à sepultura do vô Raul, minha avó, de preto, demonstrava muita emoção. Era a década de 1970 e ele tinha morrido havia poucos anos. Eu já sabia ler. Lá estava, em discretas letras de bronze, o seu nome: “Raul Leite Bandeira de Mello”. Abaixo, duas datas: 14.01.1902 e 14.04.1968. Ele morreu num domingo de Páscoa, ocasião em que teria feito os seus inesquecíveis bolinhos de bacalhau.

O tempo foi passando e vó Aurora foi abrindo mão das idas ao Caju, mas creio que, no fundo, ela gostaria de conferir se a sepultura se mantinha conservada e se as letrinhas estavam todas lá. Ela sempre dizia que o túmulo da família era ali porque havia um lindo flamboyant, cuja sombra aliviava o calor que faz naquela região da cidade.

Faz mais de 40 anos que ela morreu e só os dois foram sepultados no local. O flamboyant foi cortado e a inscrição na lápide está cheia de lacunas, inclusive as duas letras l do Bandeira de Mello — questão de honra para minha avó. “Mello com dois ls”, ela exigia. Já o restante da família que se foi, inclusive meus pais, preferiram a cremação. Não há mais qualquer vestígio de Raul e Aurora no Caju. Apenas a saudade persiste, deles e de outros queridos, sabe-se lá onde estejam.