
Seu Fernando tinha 80 anos quando avisou aos filhos que viajaria para a Europa com Déa, sua namorada, dois anos mais nova que ele. Meu amigo Sidônio, seu filho, ficou apreensivo, mas confiava nas excursões da Abreu Turismo que o pai costumava contratar. Afinal, dos idiomas falados na Europa, ele e Déa só dominavam o português.
Seu Fernando estava animado para mostrar à Déa os lugares lindos que já tivera a oportunidade de visitar. Na véspera do embarque no Galeão, Sidônio foi à casa do pai checar se estava tudo certo: passaporte, vouchers, cartões, dinheiro, remédios e se o pai havia escolhido roupas apropriadas para o frio que poderia enfrentar. De saída, assustou-se com as 21 cuecas separadas.
— Papai, para que essa quantidade enorme de cuecas?
— Ora, Sid, uma por dia.
— Mas você pode lavar no hotel.
— E eu sou homem de lavar cuecas?
Sidônio deixou o machismo do pai para lá. Não era um volume tão grande.
No dia seguinte, ao levá-los ao aeroporto, veio o susto. Onde estava o guia da agência de viagens? Foi quando Sidônio soube que não se tratava de uma excursão. Os dois embarcariam para Londres sozinhos, sem falar inglês, com quatro malas e o peso da idade.
— Sid, você se esqueceu de que sou seu pai? Criei sete filhos e não posso viajar sozinho com minha namorada!
Sidônio os ajudou a despachar as malas no único balcão aberto com uma funcionária, já que quase tudo era na base do autoatendimento. E lá foram os dois, com os cartões de embarque impressos, apresentar os passaportes à polícia de fronteira, sofrer a revista de segurança e procurar o portão de embarque.
Nós crescemos, nos tornamos adultos e nossos pais envelhecem. É inevitável que, em algum momento da vida, os papéis se invertam — se tivermos a sorte de tê-los ao nosso lado por um longo tempo.
“Coma tudo.” “Estudou?” “Leve um casaco que está frio.” “Está com a carteira, tem dinheiro?” “Mostre!” “Você não me telefonou ontem.” “Está tudo bem com as crianças?” “Vem me visitar?” “Fiz pudim. Você não vem?”
E, do outro lado: “Pai, você foi ao médico?” “Mãe, como foram os exames?”
Seu Fernando e Dona Déa desembarcaram no Aeroporto de Heathrow, um dos maiores do mundo. Um rapaz fez questão de ajudá-los a encontrar a esteira de onde sairiam suas malas. As duas malas de Dona Déa, no entanto, não chegaram. Uma brasileira com o mesmo problema ficou preocupada com os dois e foi com eles até o hotel, em frente ao Hyde Park.
Seu Fernando telefonou para Sidônio para dizer que Déa estava nervosa sem a mala. Como trocaria de roupa? E de calcinha?! Sidônio preferiu não imaginar a cena. Pelo menos, havia mais de 20 cuecas na mala do pai.
Para remediar a situação, contratou um guia brasileiro em Londres, localizou a mala de Déa e mudou a passagem dos dois de Londres para Paris. De lá, seguiriam só para Lisboa, com guias, excursões e traslados contratados, antes de voltarem para o Rio.
Seu Fernando chegou feliz da vida, e com muita história para contar. Déa amou a viagem. Só lamentou não ter ido a Paris, passeado ao longo do Rio Sena e conhecido a Catedral de Notre-Dame.
Vão no ano que vem! Apesar de já terem combinado um tour pelo Japão, com uma escapulida a Hong Kong.
…
P.S. Além dos nomes, alterei pouca coisa dessa história real.
Uma pérola, Mauro. Fluência e humor contido, com convém!!
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