Dobrar-se ou não à tecnologia? Usar ou não usar a Inteligência Artificial, eis a questão. Pessoalmente, ainda torço o nariz para ferramentas tão notáveis quanto desconcertantes. E, falando em torcer o nariz, ocorre-me aquele que seria uma das primeiras vítimas da IA: Cyrano de Bergerac.

Na peça de Edmond Rostand, Cyrano é apaixonado pela bela Roxane. No entanto, seu talento com as letras e a sua essência encontram no tamanho avantajado de seu nariz um obstáculo que ele julga intransponível. Sente profunda vergonha de sua aparência.

Por outro lado, existe Christian, um bonito rapaz, mas desprovido de talento e sensibilidade para conquistar o coração de Roxane. É quando Cyrano se torna o ghost-writer de Christian, escrevendo os mais belos poemas e as cartas mais românticas, que encantam a donzela.

Et alors? Se, no século XIX, os personagens do escritor Edmond Rostand tivessem acesso às ferramentas de IA e a técnicas contemporâneas de cirurgia plástica, o rumo dos acontecimentos seria outro. 

A primeira hipótese seria uma rinoplastia. Cyrano se submeteria à cirurgia e teria outro nariz: bonito, arrebitado, encantador. Por outro lado, apesar de seu rival não poder se submeter a uma harmonização cerebral – isso ainda não existe! -, poderia pedir ao ChatGPT ou a outra geringonça similar os mais belos poemas, as mais arrebatadoras cartas de amor. 

Imagino a dúvida que assaltaria a bela Roxane. Qual dos dois escolher? Bem, prefiro não arriscar um palpite. Atualmente, há mil e uma alternativas de composições amorosas e relacionais, mas vou encerrar esta dúvida dirigindo-me justamente ao tal oráculo artificial. Em seguida, transcrevo-a aqui. Um minuto!

Eis a minha pergunta e a “resposta artificial”:

– Se Cyrano de Bergerac tivesse um belo nariz, Roxane se apaixonaria por ele?

“- Conforme a obra de Edmond Rostand, a resposta mais provável é sim. A barreira que o impedia de se declarar seria removida. Roxane já era apaixonada pela alma, pelo espírito e pela poesia de Cyrano, mas ela não sabia que pertenciam a ele. Ela amava as cartas e as palavras que ele escrevia para Christian. No final da peça, quando Roxane descobre a verdade, ela afirma categoricamente que amava a alma por trás das palavras. Ela chega a dizer que teria amado Christian mesmo se ele fosse feio, desde que ele tivesse aquela alma. No entanto, há uma ironia cruel: foi justamente o sofrimento causado pelo nariz que moldou a eloquência e a personalidade brilhante de Cyrano. Sem o seu “defeito”, talvez ele não tivesse desenvolvido o espírito tão afiado que acabou por conquistar o coração de Roxane.”

Leu isso?! É o fim! Que raiva! É a minha extinção e a de muitos amigos em curso acelerado. Resistamos! Lápis e canetas esferográficas em punho. En garde!