Quando a questão é dinheiro, a relação entre os homens complica-se bastante, mesmo entre aqueles aparentemente mais desapegados da fortuna material e entre os mais próximos.

Ontem, mostrei à minha filha via YouTube uma cena do “Primo Rico, Primo Pobre” do programa Balança Mais Não Cai. Ela rolou de rir com a extraordinária dupla de comediantes: Paulo Gracindo e Brandão Filho. Um clássico do rádio e da TV que encantou uma jovem de 24 anos. “Pai, isso é real!”

Pena que também são muito reais e comuns as manifestações de avareza. Por exemplo, o vizinho fictício da cobertura. Na última reunião de condomínio, ele pediu que o Livro de Ouro de Natal dos porteiros fosse proibido. Disse que é muito constrangedor que as pessoas fiquem sabendo o quanto cada um contribui. Foi um zum-zum-zum e, felizmente, a maioria rechaçou a proposta do “mão de vaca”, justamente o mais rico.

O sujeito ainda aproveitou para atacar o projeto do fim da escala de 6 por 1. “Onde já se viu? Vai quebrar o Brasil. Já não basta o Bolsa Família para os preguiçosos?” Minha vontade foi de quebrar seus dentes. Aposto que o traste deve ter ensinado aos filhos que na história dos Três Porquinhos, o porquinho que construiu a casa de pedra e tijolo não deveria ter aberto a porta para os dois irmãos que fugiam do lobo.

Por outro lado, para não perdermos a esperança nos homens, há uma passagem bíblica muito bonita, a parábola do óbolo da viúva. Mesmo possuindo muito pouco, a viúva doa tudo que tem, simbolizando a caridade mais pura. O óbolo, na Antiguidade, era uma moeda de pouco valor, também associada a ritos funerários. Na Grécia, um óbolo era colocado na boca dos mortos, para pagar ao barqueiro Caronte a travessia para o mundo dos mortos: o Óbolo de Caronte.

Figuras como o vizinho da cobertura se multiplicam no mundo dos muito vivos. Mas a caridade pode morar ao lado. Cito meu sogro, que fez toda a diferença na vida de muitos primos pobres. Justamente ele, que passou a maior parte da vida por grandes privações. Seu Oswaldo não admitia ver uma pessoa passando fome. Imediatamente, oferecia um prato de comida, tentando fazer melhor a sua parte.

Adorava ganhar dinheiro, mas adorava doar. Quando morreu, não deixou herança, mas seus filhos e netos receberam fartos exemplos de solidariedade e desapego, dele e de minha sogra, a Dona Rosarinha. Era comum eu chegar à sua casa e, além de ele me receitar os mais modernos antidepressivos da farmacologia, me perguntar: “Mauro, você está precisando de dinheiro? Não vá passar necessidade!” E arrematava baixinho: “Tenho um milhão”.

Cecília, minha filha, herdou dos avós a generosidade, o desapego e o senso de comprometimento. Isso me enche de orgulho!