Diante de tanta insanidade e perversidade, e receoso de que justiça e diplomacia sejam coisas do passado, aferro-me a um simplismo radical e a soluções de conflitos rasteiras que me ocorriam quando era jovem. Por exemplo, apelar para meu amigo imaginário, o 007 – com permissão para matar.

A tese era que mandar um grupo de personalidades para o subsolo mais profundo do Universo funcionaria como uma espécie de livramento. Eu tinha até uma lista de pessoas selecionadas para embarcar na Arca do Tinhoso, imaginando que o mundo sem certas figuras seria muito melhor.

Esse pensamento é fruto das manchetes dos jornais e também de quando mostrei à Cecília o hotel onde um político brasileiro se hospedava na opulenta Avenue Montaigne, em Paris. Contei-lhe que, a despeito dos privilégios herdados de uma família riquíssima, ele dedicou boa parte da vida a tirar dos pobres para dar aos ricos, contribuindo para um mundo mais injusto e cruel.

Pois esse magano era uma das pessoas que eu indicava como candidato para Bond, James Bond, exercer a sua prerrogativa principal. Ou para o célebre atirador de Frederick Forsyth, o Chacal, exibir o melhor da sua arte. Mas, hoje, o tal sujeito é inofensivo, havendo outros alvos de projeção nacional e internacional muito mais interessantes para a atuação da dupla.

Tudo isso no mundo da ficção, lógico, pois sou um pacifista, radicalmente contra a pena de morte. Mas, como todo ser humano, por vezes, dou uma escorregada – ainda mais experimentando um grau de aflição sem precedentes.

Legítima defesa da humanidade? Xô tentação! Xô instintos primitivos! Não é por aí. Há meios mais adequados para reagir contra a maldade e a desilusão, como utilizar a minha arca imaginária para levar passageiros seletos para a Ilha de Trindade, a 1200 km da costa do estado do Espírito Santo.

Segundo li em reportagem recente, as cabras que ali viviam desde o final do século XVII, colocadas por iniciativa do astrônomo britânico Edmond Halley, com o propósito de alimentar quem por lá passasse, estão pastando em outras freguesias.

Portanto, sem maiores embargos, os meus, os seus, os nossos condenáveis de estimação – sobretudo os senhores das guerras e seus patrocinadores – poderão viver na “Ilha de Cabras” até o fim da vida. A rigor, um privilégio! Pode não ser um resort, pode não haver sinal de internet e outras comodidades, mas é muito, muito melhor do que estar na mira do rifle do Chacal ou da Walter PPK do Double-O-Seven.