
Em tempos de recrudescimento da intolerância e da xenofobia de estado, a lembrança de uma amiga muito querida me arranca um sorriso. Como eu, ela adorava viajar, dedicando parte do seu tempo ao estudo do inglês e do francês. O espanhol nunca foi uma prioridade, apesar das muitas viagens que fez à Espanha e às suas antigas colônias. Virava-se bem com o portunhol. Mas o empenho em aprender línguas estrangeiras era inversamente proporcional ao seu ouvido musical, e ela era a primeira a reconhecê-lo ao contar suas experiências de globe-trotter.
Na França, seu recurso era fazer biquinho, reforçarr os “r” e acentuar determinadas vogais. “Messiê, eu querrê una sopá de cebolá”, caprichando no “s’il vous plaît” ao final. Na Inglaterra e no restante do mundo não lusófono, francófono ou hispanófono, ela se virava com um inglês peculiar. “Mister, do you have soup of cebola?” Mas o mais arriscado era que, às vezes, o mix era total. “Una beer, beaucoup gelada to me, please”.
Ao voltar de uma temporada na Europa, concluiu que o fato de ser poliglota a atrapalhava um pouco, mas que tudo sempre dava certo. Com um temperamento maravilhoso, jamais discutia com garçons. Se pedia ou achava que estava pedindo frango, mas vinha peixe, desfrutava da refeição com o mesmo alto astral incomparável, tendo feito descobertas gastronômicas inesquecíveis. O difícil era repetir a dose quando gostava. “C’est tout la même chose”, ela usava como vírgula, e mais de uma vez perguntaram-lhe que língua ela estava falando. “Français, of course!”
Minha sogra costuma dizer que o maior desafio imposto por Deus aos homens foi dar-lhes idiomas diferentes. A barreira da língua – um dos elementos das culturas -, se impõe diante de muitos – o que justifica, então, a técnica linguística dessa querida amiga. Mímica ajuda, bom humor é fundamental, mas o espírito de aventura é a principal chave para uma viagem bem sucedida a países estrangeiros, incluindo o risco de estarem debochando de nós. Mas o que os ouvidos não compreendem o coração não sente. Muita saudade dela…
Adorei!!!!! Me lembrei de uma história que a minha filha postiça presenciou em Paris. Uma brasileira, pelo sotaque baiana, diante de uma vitrine de doces. Viu um deles, apontou e perguntou: “O que é?” A serveuse, meio sem jeito, respondeu: “C’est une tartelette à l’abricot”. Retruca nossa conterrânea: “Abricó? òtimo. Vou querer uma”. E, feliz da vida, comeu sua tortinha…
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rsrsrs Deu água na boca! rsrs “vou querer uma”…
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