A mímica é uma arte e teve em Marcel Marceau seu maior expoente. Mas o artista francês, falecido em 2007, também mereceria os maiores aplausos por sua atuação no movimento de Resistência Francesa, durante a Segunda Guerra Mundial. Por exemplo – segundo é possível conferir no filme Resistência, do diretor Jonathan Jakubowicz -, ele ajudou dezenas de crianças judias a fugir da França. Vale a pena assistir!

Mas mímica também é uma brincadeira engraçada, feliz, que nada tem a ver com aquele período triste da história da humanidade; e tenho boas recordações deste jogo formado por dois grupos. Cada um seleciona filmes que servirão de desafio para os adversários descobrirem o título pela linguagem corporal de um dos seus jogadores. Lógico, com uma limitação de tempo. A primeira iniciativa é anunciar com os dedos das mãos o número de palavras e por qual delas começar.

Há interpretações “clássicas”. Abrir os braços e dar uma girada olhando para cima, sem dúvida, é A Noviça Rebelde. Quem não se lembra da célebre cena de Fräulein Maria no topo de uma colina de Salzburg, cantando The hills are alive? Fácil demais! Imitar a expressão do Norman Bates com a mão levantada como quem golpeia alguém com uma faca é Psicose – óbvio. O Exterminador do Futuro também é tranqüilo: basta simular uma metralhadora com um dos braços e fazer o gesto indicativo do “depois”, do futuro.

Mas desafios maiores surgem na brincadeira. Lembro-me de ter quebrado a cabeça com Blow-Up – Depois Daquele Beijo (1966) – um filme de Michelangelo Antonioni que exigia do meu grupo uma boa cultura cinematográfica. Beijo é fácil. Mas há muitos filmes com “beijo” no título: O Beijo no Asfalto, O Beijo do Vampiro, Depois Daquele Beijo, Beijos que Matam. Mas como fazer Blow-up?! Com os parcos conhecimentos da língua inglesa de todos, a ampulheta me derrotou com facilidade. O último grão de areia caiu sem que a palavra blow-up tivesse sido pronunciada. Mas só naquela vez! Depois desse fracasso, bastava eu dar um beijinho no ar para a turma gritar: “Blow-Up”!

Bons tempos, os das mímicas da minha juventude! Lembro-me da atuação memorável, digna dos melhores comediantes, do amigo Sebastian. Ele olhou fixamente para o grupo, indicou que o filme tinha três palavras e, a partir daquele instante até o final, dava sucessivas requebradas com o tronco e o gesto de calçar uma meia. Ninguém descobriu e ele ficou indignado. Ainda se mexendo muito, como quem faz a dança do ventre, protestou: “Ora, seus idiotas, é evidente que isto é um oito! Com a meia, dá Oito e Meio! De Fellini!”