Quando tragédias coletivas ocorrem, por instinto de autopreservação ou covardia, desligo a televisão para escapar da avalanche de notícias e da contabilidade do horror. E foi esse precisamente o caso do último 28 de outubro de 2025.

O Governo do Estado do Rio de Janeiro deflagrou, no Dia de São Judas Tadeu, a sua mais violenta operação policial, com pelo menos 121 pessoas mortas e centenas de milhares aterrorizadas.

Não há palavras para descrever o que as pessoas que vivem no complexos do Alemão e da Penha devem ter sentido nesse dia. Estou longe daquela realidade, mas sinto náuseas diante do que me chega sobre as ações de governos cada vez mais despreparados diante do crime cada vez mais organizado.

Há 40 anos, ouvimos de um dos indefectíveis governadores do Rio que ele acabaria com a violência em seis meses. Obviamente, não cumpriu a promessa e, de lá para cá, colecionamos fracassos na área da segurança pública.

Nada muda para melhor! Em especial, diante da fórmula de enfrentamento do problema – sempre a mesma –, o que leva a crer que a data escolhida para esta investida contra o crime organizado não poderia ter sido mais emblemática: a do santo das causas impossíveis.

No ano que vem, ano de eleições, os candidatos renovarão suas promessas de soluções fáceis. Veja, por exemplo, o grau de alucinação de um dirigente partidário influente e então secretário de Transportes deste mesmo governo estadual que deflagrou o morticínio. Em fevereiro de 2025, ele anunciou o seguinte numa rede social:

Meus amigos, trago uma excelente notícia! Estive na Suíça na última semana ao lado do deputado Fulano de Tal (seu irmão) e do secretário de transporte de Duque de Caxias, Beltrano, para conhecer de perto a fábrica dos cabos que serão instalados no teleférico do Alemão. Com muita satisfação, posso afirmar que em breve todas as estações estarão novamente em funcionamento, garantindo mais dignidade e acessibilidade para a população da região! Esse é um compromisso do nosso governador.”

Esses políticos foram longe para ver de perto, mas não vão ali perto para ver o que se sabe de longe. Ainda dizem que seu compromisso é com a dignidade! Que horizonte se enxerga do palácio e do alto do tal teleférico? Certamente, de lá as pessoas são ainda mais imperceptíveis… e outra vez o pessimismo me assalta à mão armada.

Recomendo a quem souber rezar e acreditar num futuro digno para os moradores das comunidades pobres do Rio que dirija seus pedidos a Judas Tadeu, pois, a toda evidência, a questão parece ser insolúvel.