
Meu sogro, cujas histórias merecem um livro – tamanha é a riqueza de sua vida, é o dono do meu texto da semana. Depois que perdeu os pais muito cedo, Sr. Oswaldo trabalhou como caixeiro viajante e com extração de areia – uma dureza só -, até que decidiu trocar Minas Gerais pelo Rio de Janeiro, onde se tornou mecânico de automóveis na década de 1950, resumindo drasticamente a história.
O marido de sua irmã mais nova deu-lhe manuais de mecânica e um espaço para trabalhar na sua importadora de automóveis americanos, na Rua dos Inválidos, Centro do Rio. Em troca, Sr. Oswaldo daria assistência aos compradores dos Chevrolet, Dodge e Ford vendidos pelo cunhado. Cumprido o acordo, nas horas vagas, ele poderia consertar carros de fora para sustentar a família.
E foi nesta mesma rua, que ele encontrou outro espaço para montar sua pequena oficina e seguir em frente, entre altos e baixos. Na lista dos “altos” estava o câmbio automático do Studebaker. Orgulhoso da profissão, ele me disse que encontrara a fórmula mágica para curar os males daquela máquina Made in USA e ganhou muito dinheiro com os “Studs”, perdido mais adiante no primeiro incêndio da loja alugada. Mas a essa altura os sete filhos estavam encaminhados.
Em 1986, casei-me com sua caçula e tive o privilégio de conviver com essa figura singular por quase 30 anos. Não foi preciso muito tempo para eu descobrir a grande vocação do meu sogro: Medicina. É certo que a vida o havia transformado num “médico de carros”, mas, além de cuidar de motores e de hidramáticos, ele adorava receitar para os humanos.
Talvez, o gosto pela Medicina fosse uma influência do seu segundo filho, estudante da Faculdade Souza Marques. E também havia os médicos do Instituto Médico Legal, localizado em frente à sua loja. No botequim da esquina, os médicos legistas lhe falavam sobre os segredos do corpo humano. Aliás, era no IML que Sr. Oswaldo conseguia boas “peças” para as aulas de Anatomia do filho Gilberto. Sonize, minha mulher, dizia que essa história de esqueletos nos armários era rigorosamente verdadeira na casa onde viviam. Mas, lá, os esqueletos trazidos do IML ficavam embaixo da cama do irmão.
Certa vez, um cliente da oficina comentou que a esposa estava sofrendo com o intestino muito preso e Sr. Oswaldo não pestanejou. Pegou uma das amostras grátis que mantinha no trabalho e mandou o sujeito dar logo quatro compridos à mulher, de uma só vez. “O senhor verá. É tranchant!” Ele adorava usar esta palavra francesa. Resultado: no dia seguinte, o tal sujeito voltou para informar que a “paciente” do Sr. Oswaldo havia explodido. “Mas a prisão de ventre passou!”.
Volta e meia ele me olhava e disparava suas prescrições. Seus conhecimentos iam muito além dos motores à explosão, das caixas de câmbios, das direções hidráulicas. Ele também atuava no campo da Psiquiatria e da Gastroenterologia. “Mauro, você deveria experimentar o Prozac. É uma beleza! Tem outro remédio também muito bom para o estômago, o Losec. É tranchant! Passa lá em casa que te dou uma caixa”. Sem falar que eu não podia tossir na sua frente. “Ih, não estou gostando nada dessa sua tosse”, vaticinava.
Tudo isso me ocorre a dois meses de minha filha receber o diploma de Medicina. Imagino o orgulho do avô, que, se aqui estivesse, não perderia a chance de contar seus casos e diagnósticos para a nova médica da família. Aliás, ele certamente montaria uma policlínica na Rua dos Inválidos. Cecília é sua sétima neta médica! Há netos para todas as especialidades. Sem dúvida, eles puxaram ao avô!
Puxa! Gostaria de ter conhecido o sr. Oswaldo. Devia ser mesmo uma figuraça!
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Bota figuraça nisso. Uma vez chegou lá em casa com um pacote de carne, dizendo que tinha comprado um bife para mim, um para ele e outro para o Repi, nosso pastor alemão, para quem também dava Coca-Cola escondido. rsrsrs
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