
Saía de carro para uma reunião em São Conrado, quando vi o porteiro do meu antigo prédio no ponto de ônibus. Ele subiria para a Rocinha, onde mora.
– Oi, Zé! Tudo bem? Está indo para casa? Eu ia para São Conrado pelo túnel, mas te dou uma carona.
– Não precisa, Seu Mauro, eu espero a van.
– Entra, Zé.
Há tempos não subia a Estrada da Gávea e, engarrafamento por engarrafamento, eu estaria prestando um favor ao Zé, ótima pessoa e bom papo. E lá fomos nós. Em poucos metros, o bairro de classe média alta e de alguns milionários deu lugar à favela mais famosa do Rio.
Zé falava do que havia de bom e ruim na Rocinha. No geral, estava satisfeito, mas tinha planos de voltar para a Paraíba, onde tinha construído uma boa casa. Do alto do morro, duas visões de tirar o fôlego. Atrás, Lagoa, Ipanema e Copacabana. À nossa frente, São Conrado aos pés da imponente Pedra da Gávea.
Quando parei o carro para ele saltar, vi uma porca imensa a poucos metros.
– Caramba, Zé! Nunca vi uma porca tão grande. Parece uma vaca!
– É a Rebeca, Seu Mauro.
– Rebeca? Haja criatividade! Que maravilha de nome!
Na hora, pensei no título do filme do mestre Hitchcock, Rebecca, a Mulher Inesquecível. Mas esta associação foi cortada pela raiz, quando Zé me contou uma das funções daquela porca colossal na favela. Aliás, a função de muitos porcos criados nas comunidades comandadas pelos estados paralelos.
Não digo que fiquei surpreso com a naturalidade com a qual Zé falou de Rebeca, que, obviamente, não era a do filme, cujos personagens foram interpretados por Lawrence Olivier, Joan Fontaine e por Judith Anderson, no papel da governanta, a assustadora Sra. Danvers. Mas reprisei o meu espanto com a diferença colossal da minha realidade com a de outras pessoas que vivem ao lado.
O mistério da porca Rebeca e de outra chamada Beth só existe para nós, os moradores do asfalto. Na Rocinha e nas comunidades pobres do Rio de Janeiro, qualquer criança sabe que os porcos comem os cadáveres “desovados” e os restos mortais das pessoas sentenciadas e executadas pelo comando local.
Se você chegou até aqui, leu o parágrafo anterior e descobriu o mistério da Rebeca, queira me desculpar. O que aparentemente seria uma história bem humorada revelou-se trágica e cruel.
Meu Deus! Uma realidade que está ali ao lado e que a gente ignora completamente! Obrigada por essa leitura nada agradável, mas muito reveladora da nossa ignorância (e indiferença?)
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