
Porfíria tinha 90 anos e fumava escondida. Por quê? A essa altura do campeonato, a quem deveria qualquer obediência ou satisfação? Aos 90 anos, sei que seu problema não era medo de ser chamada de gagá. Porfíria tinha consciência dos seus lapsos de memória e era grata por tê-los. As lembranças têm um lado bom, mas podem ser dolorosas, a depender da ocasião. Da porta, já não surgem as pessoas que esperamos; há cadeiras vazias em torno da mesa… E o que dizer das decepções? Heróis de ontem podem ser vilões hoje. Melhor esquecer.
Minha tese é de que Porfíria escondia o seu prazer pela força do hábito – o hábito de obedecer, de ser vigiada e julgada. A propósito, os julgamentos costumam ser cruéis, especialmente com a parte mais fraca da relação: os mais pobres, com os mais pretos. E refiro-me aos julgamentos em geral, conduzidos por nós mesmos, das questões mais triviais às mais complexas. “Mais do que depressa a mão cega executa”, dizia o poeta.
Já minha avó paterna era diferente. Ela não tinha o hábito de fumar, mas, se o fizesse, jamais seria escondida. Costumava dizer que, depois de certa idade, adquirimos prerrogativas. Em outras palavras, nos tornamos mais livres, apesar de a liberdade ter sido um direito negado à maioria das mulheres da sua geração. Lembremos que o divórcio no Brasil só foi legalizado em 1977; até então, o casamento era indissolúvel pela conveniência dos homens. Mas tudo muda com o tempo.
Se hoje sou visto como um idiota por fumar, antes eu era charmoso como o cowboy de Marlboro. Hoje pode ser assim, mas ontem era “assado”. O essencial é que há muita coisa que melhora. Depois de certa idade, além de não pagarmos a passagem do ônibus, podemos ligar a “setinha da indiferença” para indicar que não temos mais nada a provar. Qual é o problema se sinto falta das fotonovelas e gosto de vinho suave? Também posso pintar o cabelo de azul, ou de qualquer outra cor, e confessar em quem votei no passado. Tenho a prerrogativa de chutar o pau da barraca. E mais: posso assumir que assim como o Alberto Roberto, durmo de cueca. Enfim, posso, sim, dar uma de gagá, usando e abusando das licenças poéticas buriladas pelo tempo.
Adorei!!!! Eu, que já sou idosa há bastante tempo (de acordo com a legislação, pelo menos) me vejo muito assim, como a sua avó. Adquirimos prerrogativas que nos permitem acender a famosa setinha do f…-se e seguir em frente. Ah, como gosto de te ler, rapaz…
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