
Não é fetiche por sapatos, mas, volta e meia, eles são peças importantes no que escrevo. Já brinquei que minha mulher sofre de síndrome de centopeia. Já escrevi sobre Imelda Marcos, a esposa do ex-ditador das Filipinas, dona de milhares de pares de sapatos. Tratei dos mocassins das solas vermelhas da Farra dos Guardanapos, capitaneada por um ex-governador do Rio e sua primeira-dama e, recentemente, contei a história do hábito australiano de beber cerveja no sapato.
Hoje, volto a eles. A Polícia Federal encontrou, semana passada, dinheiro escondido nos sapatos do vereador Francisquinho Nascimento, de Campo Formoso (BA). Ele é primo do deputado federal Elmar Nascimento, um dos principais líderes do Centrão no Congresso. A rigor, a cena não é incomum, em especial num país onde políticos já foram apanhados com dinheiro nas meias, nas cuecas e até, no caso de um senador da República, vice-líder do governo passado, nas nádegas!
Fato é que me lembrei das aulas de Direito Tributário, que meu amigo Luiz Henrique Arruda, especialista na matéria, poderá confirmar ou corrigir. Há um princípio de tributação chamado non olet (sem cheiro em latim). Para o Fisco, não importa o cheiro do dinheiro, nem sua procedência, desde que o imposto devido seja pago. Desta forma, tanto faz o dindin, a pila, a grana, o cascalho, a bufunfa, o faz-me-rir – ou seja lá como você chama seu dinheiro -, estar ou não impregnado de chulé ou de odores piores. O Leão tapará as narinas para devorar parte dessa renda. Entre outras razões, para pagar os salários dos ínclitos servidores citados acima.
Só lamento que, ao invés de se refestelar com dinheiro cheiroso ou malcheiroso, o Leão não avance nas carótidas dos gatunos que o subtraem e o escondem. Eles têm emenda, mas não têm conserto!
Maravilha! Especialmente o final!
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