
“Teresa é muito burra! Respondeu que o primeiro governador geral do Rio de Janeiro foi Negrão de Lima. Ela não sai de casa antes de decorar o livro da escola!”, afirmou a mãe de uma amiga de infância, que se tornou motivo das maiores gargalhadas. Estávamos em 1970, eu tinha oito anos e não compreendi qual seria o erro. Afinal, Negrão era o governador do Rio. De qualquer forma, entre mentes tão brilhantes, achei graça também.
Não por acaso, por volta da mesma época, descobri meu total desapego à guarda de documentos, em especial, dos meus boletins escolares. Iam direto para o lixo. Quando surgiu a necessidade de devolvê-los com a assinatura dos meus pais, desenvolvi uma técnica eficaz para que eu mesmo me encarregasse dessa tarefa aborrecida. Meus pais tinham outros quatro filhos e muitas obrigações. Preservá-los era um dever.
Vencido o primário, fui matriculado num “cursinho de admissão”. Sofri muito. A matemática não entrava na minha cabeça e vice-versa. Equações eram, de fato, problemas enormes para mim, e assim permaneceram no ginásio e no científico, ao lado das disciplinas de física e química. Bela Magnésia cantou estranha balada no rádio… Esta frase nunca saiu da minha cabeça. Era um recurso para decorar a lista dos metais alcalinos terrosos da tabela periódica: berílio, magnésio, cálcio, estrôncio, bário e rádio. Tabela periódica? Alcalinos terrosos? Para quê?
Adiante, veio a primeira faculdade, que me rendeu o contato com o cálculo integral. O carrasco mais cruel não teria me infligido mal maior. Integral para mim, até hoje, só o leite Ninho e naquela altura tive certeza de que não conquistaria diploma algum. Meu fim chegara antes do fim, pois eu jamais transporia os círculos do inferno da matemática.
Escrevo isto depois de ler o livro autobiográfico Diário de Escola (Chagrin d’École), de Daniel Pennac. Com humor e sensibilidade, Pennac conta a história dele e a de muitos de nós! Alunos nulos, zeros à esquerda, condenados a não ter um “futuro”. Não foi o seu caso, que se tornou professor e escritor. Aliás, daqueles professores que lançam bóias a estudantes náufragos.
Recomendo fortemente a leitura deste livro. Relembrou-me professores, colegas e a mim mesmo. E Teresa? A da minha infância? O que terá sido feito dela? Será que teve um “futuro”? Por acaso, aprendeu o óbvio, que o primeiro governador-geral do Rio de Janeiro foi Estácio de Sá? Ou teria sido Mem de Sá? Salvador de Sá? Frei Caneca? Sei que é um nome de rua. Você sabe? Entrementes, vou perguntar à Inteligência Artificial.
Maravilha, Mauro! Química sempre foi pra mim um graaaaaaaaaaaaande problema! Mas de governadores e nomes de ruas eu entendo…
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Rsrsrs Somos de Humanas, né?
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