
Perto de chegar a 400 dias de isolamento, faço um balanço do que fiz de útil nessa quarentena sem fim. No início, mergulhei nos livros. Saldei minha dívida com alguns tijolos acomodados na estante da sala, como a Montanha Mágica. Depois, decidi consertar o que estava quebrado em casa, retocar a pintura, esvaziar gavetas e, enfim, criar um canto para trabalhar.
Até então, eu funcionava como um sem-terra, a todo momento expulso pelas outras criaturas da casa, com exceção do Cuscuz. O privilégio de ter um trabalho, exercê-lo de casa e, agora, ter um canto meu é um alento, mas a dor ao redor, da maioria das pessoas, transpõe qualquer barreira; passa pela portaria, sobe pelo elevador e bate na nossa porta. As distrações, portanto, passaram a fazer parte do meu manual de sobrevivência.
Além dos livros e do trabalho, gosto do programa de culinária da Rita Lobo, assisto filmes e séries muito interessantes. O Método Kominski deixou saudade. Borgen é uma ótima aula sobre o parlamentarismo, Rita é a versão escandinava do catalão Merli e aguardo o raio da continuação do Lupin. Mas a maior novidade na minha rotina são os programas de reformas do canal 555.
Desde então, passei a sonhar com uma “sala em conceito aberto” e uma ilha. Traduzindo: sala e cozinha sem paredes, num mesmo ambiente, e uma grande bancada central que eles chamam de ilha. E tudo se transforma com a maior facilidade. No mundo do drywall, você reúne a família, dá uma marreta para cada um e pronto! Para fazer bife sem empestear a casa toda, no problem. Tem sempre uma churrasqueira no deck do lado de fora.
Um desses programas é passado na bela Vancouver. Casais que sonham morar melhor contam com uma arquiteta e um corretor de imóveis para decidirem se permanecerão na sua casa após uma reforma ou se trocarão de endereço. Portanto – e este é o título do programa – se vão amá-la ou deixá-la. O roteiro é rigorosamente o mesmo, sempre. No final do programa conhecemos o veredito. Sempre torço pela arquiteta.
Quando os episódios acabam, invariavelmente olho a parede que separa a nossa sala da cozinha e me pergunto… Se eu tentasse derrubá-la? Penso nos antepassados portugueses, na solidez da alvenaria e desisto. A primeira marretada só lascaria a tinta e provocaria uma baita dor nas costas. Seria preciso contratar um pedreiro experiente para não correr o risco de provocar o desabamento dos dez andares acima de nós.
Um golinho de vinho, olho os quadros na parede e constato que já vivo bem demais. É mais importante sonhar com a reforma do Brasil. Mas o que fazer? Nada de instituições de drywall, com certeza… Conceito aberto, lógico. Mas o país tem conserto? Não vai desabar antes de janeiro de 2023? E aí? Vamos amá-lo ou deixa-lo?
amigo Mauro, estou muito velha para pensar em deixar esse país, mas também não tenho mais forças para amá-lo. O que você sugere? Que tal me emprestar uma marreta?
CurtirCurtir
Kkk Boa! Suportá-lo é realmente a alternativa mais factível, mas empresto minha marreta, sim.
CurtirCurtir
Como pude deixar passar esta sua crônica, Mauro? Vejo que estamos assistindo aos mesmos programas com outros nomes. E que, infelizmente, marretada não vai dar solução para o nosso Brasil.
CurtirCurtido por 1 pessoa
rsrs
CurtirCurtir