
A caixa de lembranças deixada por minha mãe ainda me surpreende e emociona. Ontem, ao dar uma olhada rápida e planejar rever estes recortes do passado no feriado de Carnaval, lembrei-me de ter sido chamado de Casmurro depois da publicação de um artigo meu. O título é Momocracia e lá se vão 20 anos. Nininha, lógico, recortou a publicação e, levando em conta a sua corujice, mesmo que não tivesse gostado do texto, ela o teria guardado para a posteridade. Assim o fez.
Junto com esta crônica, uma infinidade de recordações: o santinho da minha primeira comunhão, a foto oficial na Escola Barão de Itacurussá, o convite da formatura na universidade e postais antigos enviados por mim às minhas avós, com diversas caligrafias.
Achei até um conto de suspense escrito em coautoria com Cecília. O título é Alna a Mulher da Sauna, a história de uma mulher morta dentro da sauna, que não deu ouvido a um espírito que alertava com uma voz arrepiante: “Alna, não entre na sauna”. Morri de rir.
Nininha também guardou um poema que escrevi aos sete anos em que a metáfora para a minha solidão é “um cocô, boiando na privada com xixi”. Uma poesia concreta da melhor qualidade. Entre as estrofes, há uma ilustração feita com lápis de cera. Tivesse eu alcançado a (boa) fama – convicção da minha mãe para todos seus filhos, este pedaço de papel valeria uma fortuna e certamente já teria sido exposto numa galeria de renome.
Enfim, estou animado com a proximidade do reinado de Momo. Não faltarão assuntos, outros recortes de tempos felizes, de fantasias vividas e, sobretudo, do olhar afetuoso de uma mãe que me faz muita falta. Vou deixar a despensa com provisões que garantam minha sobrevivência até a Quarta-Feira de Cinzas. Na rua, não porei os pés.
Carnaval? Ainda não capitulei aos encantos das colombinas e assumo a minha casmurrice. Como escrevi lá atrás, eu gosto muito de samba, mas, “quem não gosta de sambar, bom sujeito não é”. De modo que, se me virem fora de casa, denunciem-me. A pena para o meu crime já foi decretada: prisão domiciliar por cinco dias.
Em tempo: durante minha detenção, terei direito às visitas dos amigos, fantasiados ou não.
Mais uma delícia… Bom ter uma mãe que guarda tudo, né? Também tive essa sorte. Bom Carnaval de isolamento pra você.
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