Sagrada Família, projeto de Gaudi, Barcelona.

Quem casa de papel passado pode receber ou não um dote, mas é certo que os parentes por afinidade virão: sogra, sogro, cunhada, cunhado e outros agregados. Não resista! A história nos ensina que não adianta. Lembremos o quanto foi infrutífero o grito de guerra “cunhado não é parente, Brizola para presidente”. No caso, a mulher de Leonel Brizola era irmã do presidente João Goulart e a legislação muito clara: cunhado é parente, sim, e Brizola não poderia concorrer à sucessão de Jango nas eleições que aconteceriam em 1965.

Quanto a mim, não posso me queixar dos meus “in-laws”. Tornaram minha existência mais intensa e variada. Parentes por afinidade dão uma quebrada nos padrões familiares diretos, da culinária às preferências políticas e esportivas. Por exemplo, meus avós, pais, irmãos, irmã, sobrinhos, sobrinhos-netos e primos são ou permaneceram Flamengo até o último suspiro, com pouquíssimas exceções que confirmam a regra. Por outro lado, os afins são torcedores de vários times adversários e, pior, há quem diga que não tem time, que não liga.

Abro um parêntese: particularmente não suporto isentões, os beges e os em cima do muro. Mas é lógico que eles não têm nada de indiferentes, de neutros e apolíticos. São sonsos! Foi-se o tempo da dicotomia, da Emilinha ou da Marlene, da Arena ou do MDB. O Brasil oferece um leque de 30 partidos políticos altamente comprometidos com suas causas, de comunistas a patriotas, e o cidadão ou a cidadã não se identifica com nenhum?! Duvido! Na mesma linha, sexualmente falando, é como desconhecer o arco enorme das orientações contemporâneas: LGBTQIA+KLMNOPQWXYZ. Será que os sujeitos, as sujeitas ou “sujeites” não se satisfazem com nenhuma letra? Também não engulo! Fecho o parêntese.

E o que dizer dos grupos de zap das famílias diretas e por afinidade? Na realidade, grupos e subgrupos, pois há coisas que só uma parte da família pode saber, como as críticas que fiz nesta semana à parte da minha família afim. Acredite! Marcaram a nossa festa de final de ano para o dia 29 de novembro à tarde!!! O calendário do papa Gregório XIII oferece 365 opções, mas os meus parentes por afinidade escolheram justamente o dia da final da Taça Libertadores da América! Pior! Eles não desejam que eu falte. Querem que eu vá, que assista ao jogo num playground ruidoso e fique sujeito à sua torcida contrária, às suas pragas. Não duvido que me sirvam cerveja Itaipava em lata à temperatura ambiente.

Portanto, é evidente que existe o crime que Bernardo Mello Franco definiu com brilhantismo: formação de família. Três ou mais irmãos se reúnem com a vontade livre e consciente de praticar uma conduta sabidamente criminosa. In casu, data vênia, ipsis literis, encher o saco do cunhado que torce pelo time que chegou à final do campeonato da América, o Mais Querido do Brasil. Não sei… Ainda não decidi o que eu, um vietcongue, segundo eles, farei. Simplesmente darei um bolo? Pegarei uma gripe e tossirei sobre todos? Ainda vou pensar, mas uma pequena alusão a acontecimentos recentes noticiados ao longo da semana poderá causar certo embaraço e alimentar uma briga deliciosa. Amo as minhas famílias. São sagradas!