A mímica é uma arte e teve em Marcel Marceau seu maior expoente. Mas o artista francês, falecido em 2007, também mereceria os maiores aplausos por sua atuação no movimento de resistência francesa, durante a grande guerra de 1939/45. Por exemplo, segundo é possível conferir no filme Resistência, do diretor Jonathan Jakubowicz, ele ajudou dezenas de crianças judias a fugir da França. Vale a pena assistir!

Mas mímica também é uma brincadeira engraçada, feliz, que nada tem a ver com aquele período triste da história da humanidade; e tenho boas recordações deste jogo formado por dois grupos. Cada um seleciona filmes que servirão de desafio para os adversários descobrirem o título pela linguagem corporal de um dos seus jogadores. Lógico, com uma limitação de tempo. Em geral a primeira iniciativa é anunciar com os dedos das mãos o número de palavras e por qual delas começar.

Há interpretações “clássicas”. Abrir os braços e dar uma girada olhando para cima, sem dúvida, é “A noviça rebelde”. Quem não se lembra da célebre cena de Fräulein Maria no topo de uma colina de Salzburg, cantando The hills are alive? Fácil demais! Imitar a expressão do Norman Bates com ao mão levantada como quem golpeia alguém com uma faca é “Psicose”. “Exterminador do futuro” também é tranquilo. Basta simular uma metralhadora com um dos braços e fazer o gesto indicativo do depois, do futuro.

Mas desafios maiores surgem na brincadeira. Lembro-me de ter quebrado a cabeça com “Blow-up, depois daquele beijo (1966)” – um filme de Michelangelo Antonioni que exigia do meu grupo uma boa cultura cinematográfica. Beijo é fácil. Mas há muitos filmes com beijo no título: “Beijo no asfalto”, “Beijo do vampiro”, “Depois daquele beijo”, “Beijos que matam”. Mas como fazer Blow-up?! Com os parcos conhecimentos da língua inglesa de todos, foi fácil para a ampulheta me derrotar. O último grão de areia caiu sem que a palavra “blow-up” tivesse sido pronunciada. Mas só naquela vez! Depois deste fracasso, bastava eu dar um beijinho no ar para a turma gritar “blow-up”!

Bons tempos, os das mímicas da minha juventude. Lembro-me de uma atuação memorável do Sebastian, digna dos melhores comediantes. Ele olhou fixamente para o grupo, indicou que o filme tinha três palavras e, a partir daquele instante até o final, dava sucessivas requebradas com o tronco e o gesto de calçar uma meia. Ninguém descobriu e ele ficou indignado. Ainda se mexendo muito, como quem faz a dança do ventre, protestou: “Ora, seus idiotas, é evidente que isto é um oito! Com a meia, dá Oito e 1/2! De Fellini!”