Eu e o saudoso escritor Luís Fernando Veríssimo, meu ídolo, tínhamos algo particularmente em comum: a paixão por pudim de laranja. Não sei se, como ele, que confessou que mataria por um, eu iria tão longe. Acho que me faltaria coragem… Jamais o desejo, pois seria o caso de unir o útil ao muito agradável. Ou você não tem uma listinha com nomes de pessoas que mandaria para uma ilha deserta, sem passagem de volta, sem água potável, energia e nem sinal de Internet? 

Veríssimo, como eu, tinha uma lista negra. Tudo começou no dia 13 de agosto de 1944, quando ele tinha apenas oito anos de idade e ouviu pelo rádio a transmissão de uma partida de futebol do Internacional contra o Grêmio. O Inter, apelidado de “Rolo Compressor”, vencia o jogo contra o arquirrival por 3 a 0, com gols de Elizeu, Rui e Adãozinho. Nem o mais pessimista colorado ou o mais otimista tricolor imaginou que o Grêmio viraria a partida, com dois gols de Ramón Castro, um de Bentevi e outro de Mário Carioca. Final, 4 a 3. Portanto, entre um pedaço e outro de pudim de laranja, o menino Luís Fernando desejou ardentemente a ida desses jogadores do Grêmio para o Inferno. 

Eis que, no último sábado, madame e eu fomos almoçar com amigos queridos. Apesar da enorme alegria de nos revermos, não nos furtamos a discutir a inclusão de novos nomes nas nossas listinhas negras de Asmodeu. Sobretudo, em virtude dos acontecimentos recentes que não preciso comentar. Mas isso foi apenas durante a entrada, nos primeiros minutos. Depois, entregamo-nos às conversas bem-humoradas, aos afetos e às boas energias, que atingiram o ápice quando a sobremesa foi servida.

Só amigos muitíssimo especiais, como era o caso, me fariam tamanha homenagem. Acredite! Serviram um maravilhoso pudim de laranja! Melhor: duas travessas deste manjar dos deuses! Àquela altura, não deixei de mencionar o Veríssimo e a nossa paixão em comum, além de, obviamente, relembrar uma de suas frases mais deliciosas: “O pudim de laranja é a única prova convincente da existência de Deus, além da Patrícia Pillar“. 

PS: Obrigado, Marilda, Marília, Natália, Maurício e Dinho. O nosso almoço foi inesquecível.