No final de uma semana de horrores, cheia de tristeza, agradeci pelo privilégio de ir ao cinema para assistir a um filme que me parecia feito sob medida para levantar o astral: “Mr Blake, ao seu dispor”, de Gilles Legardinier, com dois monstros sagrados da sétima arte, Fanny Ardant e John Malkovich.

Lá estava eu, no escurinho do cinema, telefone desligado e um saco de pipoca para compartilhar com uma excelente companhia. A partir dali, seriam o roteiro, a fotografia e as interpretações que deveriam garantir o sucesso do programa. E como tudo estava indo maravilhosamente bem! Até que… bem, quem vive na Gávea não vai se surpreender, mas, sim, acabou a luz! Precisamente na parte que revelaria o desfecho da história. Mais ou menos como no momento da explanação final de Hercule Poirot sobre o assassinato cometido na primeira cena.

Voilà, chers amis! Estamos no século XXI, na Zona Sul do Rio de Janeiro. No entanto, a Light, concessionária de energia elétrica que deveria se chamar Dark, aprontou mais esta. Basta ventar ou chover um pouco mais forte para a luz acabar, assim como acontecia no Alto da Tijuca no século passado, na casa da minha infância. Lembro-me dos lampiões a querosene, das velas espalhadas pela casa e da brincadeira de “amigo ou amiga?”, que minha mãe fazia comigo e com meus irmãos para servir de consolo pela novela perdida. E justamente quando Tarcísio Meira faria as pazes com Glória Menezes!

Irmãos, é preciso coragem! Para viver no Rio de Janeiro é preciso muita coragem. Obviamente, não sublinho aqui as faltas de luz constantes. Sabemos e vimos no início da semana a extensão dos perigos e o tamanho do fracasso do Estado. Mas ele, mínimo, médio ou máximo, por aqui, falha até nos serviços mais comezinhos, cujas prestações já deveriam ser garantidas em padrões civilizados há muito tempo.

A lanterninha do cinema foi simpática, nos alertou que o problema demoraria e distribuiu um vale para voltarmos outro dia. Saímos todos frustrados da sala do Estação Gávea. Se o filme permanecer em cartaz e não chover na Gávea, voltaremos.