
Le déjeuner sur l’herbe, Édouard Manet, 1863.
Como decano no meu trabalho, frequentemente sou alertado pelos mais jovens sobre as coisas terem mudado.
– Mauro, agora não é mais assim.
Exemplo clássico disso é o não tão novo emprego do verbo ficar. O sentido não se limita ao de permanecer, de estar num lugar, hospedar-se… Ficar com alguém deixou de ser apenas permanecer ao seu lado ou na sua companhia; pode significar um teste de relacionamento com diversas gradações. Alguém ficou na cama por cansaço, ok. Alguém ficou com alguém e terminaram na cama: complicou. Neste caso, começaram algo mais sério ou terminaram o relacionamento na cama? Custei a compreender!
Mas a conversa animada desta semana no trabalho girou em torno do “ficante” de uma de minhas colegas. O sujeito seria tão especial, que lhe serviu o café da manhã na cama. Desta vez, menos em função da idade e mais por um leve transtorno obsessivo-compulsivo – o vulgo TOC -, eu surpreendi o grupo dos novinhos. Disse que café da manhã na cama era motivo de sofrimento para mim.
– Poxa, Mauro!
Ora, além da necessidade de equilibrar bules e xícaras, é muito desconfortável passar manteiga e geleia no pão sobre uma bandeja. Sem contar o risco de derramar suco e deixar farelos nos lençóis, atraindo insetos.
Nada como uma boa cadeira e uma boa mesa. Não há posição melhor para o café da manhã: os pés no chão, as costas eretas e as mãos livres para os talheres. E se a mesa estiver diante de uma janela, de uma bela paisagem, não fizer calor e não houver moscas e mosquitos a sobrevoar o ambiente, comporá o cenário romântico perfeito – a depender, evidentemente, da companhia.
Chamem-me de careta, de comodista, mas, pior que café na cama, só os piqueniques mal planejados. O célebre quadro Le déjeuner sur l’herbe, de Édouard Manet (1863), ilustra a minha tese. Sentar no chão por si só é desconfortável – minhas costas protestam. Mas nada se compara ao que deve ter experimentado a moça pintada por Manet. Ficar (!) ali, nua sobre a grama? Imagino o banquete que foi para as muriçocas.
Mauro querido, só você para me fazer rir e esquecer, mesmo que por um momento, os tormentos deste nosso mundo. Obrigada!
CurtirCurtido por 1 pessoa