
Quem mora no Rio de Janeiro se habituou a ouvir o moço do ferro velho.
“Olha o carro do ferro velho. O moço está passando! Compra fogão velho, geladeira velha, ar condicionado velho. Compra cobre, alumínio, metal e dá uma limpeza no seu quintal. Ele está passando. Mas o moço volta.”
E como volta! Escuto sua voz em diversos pontos do Rio, várias vezes por dia. A gravação é semelhante a do caminhão do gás em outras cidades e, no final do anúncio, ouve-se o refrão de uma música que eu desconhecia:
“Uma nova históóória, uma nova históóória, Deus tem para mim!”.
Da mesma forma que o caminhão do gás é fidelíssimo à Bagatela nº 25 de Beethoven, Pour Elise, o moço do ferro velho não vira o disco. A música é sempre a mesma: Uma Nova História, da lavra do cantor Fernandinho, cujos discos são gravados ao vivo na 2ª Igreja Batista de Campos. Segundo a revista Super Gospel, foi eleita a 82ª melhor música da década de 2000. Não é pouca coisa e, no fundo, tem um lado bom: empresta à nossa metrópole atlântica ares de cidade do interior.
Hoje, tenho um propósito adicional para escrever sobre o moço do ferro velho: preciso blindar minha saúde com a máxima urgência e contornar os assuntos incontornáveis da semana. Assim, idealizo e proponho que o Poder Público faça um convênio com o empresário do ferro velho para que seu carro funcione também como fumacê – que espalha inseticida no ar. E mais! Como o governador do Rio de Janeiro é cantor gospel, Sua Excelência poderia emprestar a voz para a gravação. Depois de cantar a música do Fernandinho, arremataria: “O moço está passando, compra fogão velho, ar condicionado velho, micro-ondas velho e MATA MOSQUITO!”
Pauta mais positiva, não há – uma medida singela para erradicar dengue, zika e chikungunya. E se o prefeito do Rio reclamar, alegando que o mosquito é municipal, em nome da boa política, poderá propor uma aliança ao governador. Só de ouvirem a dupla “Eduardo e Claudinho”, com toda certeza, os mosquitos fugirão para outras freguesias. Caso contrário, se insistirem em nos picar e zunir nos nossos ouvidos, não reclamem dos inseticidas ou de uma sentença muito dura. Sempre fui contra qualquer tipo de anistia para os aedes aegypti! “Uma nova históóória, uma nova históóória, Deus tem para mim!”
Terá mesmo?
Lamentável e, como sempre, você acertou na mosca (pra manter a metáforas inseticidas). Grande ideia, essa: dar alguma utilidade social ao aborrecimento cotidiano e compulsório, pelo visto.
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