
Quem assistiu ou já leu sobre a ópera I Pagliacci, Os Palhaços, de Ruggero Leoncavallo, se surpreende com a atualidade da trama idealizada no final do século XIX. Realidade e ficção são mescladas. Não basta ver para crer. O público sabe que comédias e tragédias são encenadas, mas no prólogo desta ópera as convicções são abaladas. Ao invés do aviso à plateia sobre a possibilidade de truques teatrais, o espectador de Os Palhaços é alertado que estará diante da verdade nua e crua, de um amor não retribuído e suas consequências, tal qual as pessoas comuns experimentam por vezes.
Colombina nega o amor do pobre Pierrô, do palhaço. É apaixonada pelo Arlequim. Paralelamente, os atores em cena, como personagens desdobrados, experimentam triângulo amoroso equivalente. No caso, Canio e Nedda, que interpretam Pierrô e Colombina, são casados e Nedda tem um amante na aldeia onde o espetáculo está sendo apresentado. O marido palhaço sabe da traição da mulher. Mas com quem? O espetáculo deve continuar e ele canta a célebre ária Vesti la Giubba (Vista a Fantasia) no final do primeiro ato.
– Vesti la giubba e la faccia infarina. Vista a fantasia e pinte a cara. Tu és palhaço! As pessoas pagam e querem rir. Se o Arlequim rouba a tua Colombina, não importa! Ria, palhaço, e todos aplaudirão!
O segundo ato começa envolto numa atmosfera de desespero e vingança. Canio encarna o palhaço trágico, traído e triste. Tragédia e comédia se fundem. Ele quer saber quem é o amante da mulher. A carga dramática é enorme, sem qualquer clareza da fronteira do real com o fictício. As interrogações crescem na plateia. Corações sentem e desconfiam do que os olhos veem, até que, com uma faca, o palhaço mata sua mulher e o amante, que viera em seu socorro.
– Ria palhaço! Chore palhaço!
E dirigindo-se a uma plateia horrorizada, encerra a ópera.
– A comédia acabou!
…
PS Saudade de Luiz Fernando Veríssimo… A convicção da velhinha de Taubaté fará muita falta.
Maravilha, Mauro! Um quadro angustiante disso que chamamos realidade. Lembrei do Veríssimo: antigamente, o futuro era muito melhor (cito de cabeça). Seja por ignorância ou desinformação, a gente acreditava que era possível fazer um futuro melhor, um mundo melhor…
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