
Em meio ao caos diário no trânsito, da janela do ônibus, entre solavancos e freadas, observo o enxame de motocicletas ao redor, ziguezagueando nas ruas do Rio. Barulhentas, as motos surgem de todos os lados e seguem em todas as direções. Avançam sinais, arriscam-se, põem outros em risco e desobedecem a regras elementares de civilidade. Não raro, avista-se um corpo estendido no chão – motociclista ou pedestre, coberto com um plástico preto. Antigamente, acendia-se uma vela ao lado do defunto. Mas faltariam velas nos dias de hoje.
Mais antigamente ainda, na virada da década de 1940 para a de 1950, a história era outra. Segundo me contaram, Seu Hugo, pai da minha cunhada, Bebel, certo dia, antes de sair com seu carro nesta mesma cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, cuidou de completar a água do radiador e, na falta de um regador, usou uma jarra de cristal. Não sei qual era o carro, mas idealizo um Chevrolet Bel Air ou um De Soto… Ele abriu o capô, completou o nível d’água, fechou e pousou a jarra de cristal em cima da capota, antes de dar a partida no motor para o passeio que faria pela orla.
E qual não foi sua surpresa com o sucesso que passou a fazer logo em seguida. O carro ou ele próprio deviam ser realmente lindos, tamanha a atenção que despertavam nas pessoas da rua. Seu Hugo só não se deu conta de que o verdadeiro show era da jarra de cristal. Minto! Da jarra intacta, sim, mas também da forma como ele flutuava pelas ruas de Copacabana. Para a peça de cristal esquecida sobre o carro não ter se estraçalhado no chão, imagino sua velocidade.
Sinal dos tempos! Mais elegantes, certamente. A jarra sobre o carro funcionou como o livro sobre a cabeça nos exercícios de postura. Tempos mais tranquilos, sem dúvida, em que as pessoas se deslocavam de bonde, em lotações, fixando o olhar nas pessoas, nas coisas e na paisagem real; não na telinha do telefone portátil. E, como na música, com mais tempo para sonhar, avistar o Corcovado e o Redentor… Que lindo! Havia pouquíssimos carros na então capital da República. Motos, nem se fale.
Mais um presentão, Mauro. Não gosto de parecer saudosista, mas às vezes também fico lembrando de coisas que a gente fazia na maior tranquilidade… Corrida de submarino na beira da Lagoa ou da Atlântica com menos pistas. Ir da casa da minha avó, na Gávea, até o La Mole da Dias Ferreira a pé, pela Visconde de Albuquerque… Meu fim de semana já está garantido…
CurtirCurtir