
A reprodução do quadro O Grito de Edvard Munch (1893), em que o pintor norueguês imprime na tela a angústia e o desespero de uma forma irretocável, me foi enviada por um amigo ao lado de um texto de Conrado Hübner. O jurista alerta para os gritos de apelo ao medo, ao ódio, à discriminação e à violência. Eu teria preferido receber outro tipo de imagem e texto, pois, nos últimos tempos, eu próprio tenho tido vontade de gritar diante do que vejo, leio e ouço.
Em seguida, minha memória resistente remeteu-me ao título de uma peça que não assisti e da música que ouvi pouquíssimas vezes: Um Grito Parado no Ar, de Gianfrancesco Guarnieri. Que título forte! Imaginar um grito parado no ar! De qualquer forma, são dois gritos inteiramente diferentes. Os do artigo são insanos, violentos, refletem o desespero de algozes descobertos, que poderão ser legitimamente punidos.
Quanto ao outro grito, o da criação de Guarnieri, é produzido por vítimas submetidas a todo tipo de injustiça, tortura e censura. A peça é de 1973 – ano particularmente sombrio no Brasil e no mundo.
E ainda sobre gritos, há outro emblemático, o da personagem de Liza Minelli, Sally, no filme Cabaret (Bob Fosse, 1972). À noite, ela tem o hábito de se colocar embaixo de uma ponte ferroviária. Quando o trem passa, Sally grita com toda força – uma experiência catártica em que espanta os morcegos que vivem por ali e os demônios de um outro tempo de muita opressão, da Berlim da década de 1930, de ascensão do nazismo.
Portanto, “quem souber de alguma coisa, venha logo me avisar. Sei que há um céu sobre esta chuva. E um grito parado no ar”. Este trecho da canção de Gianfrancesco Guarnieri e Toquinho traz certa esperança, de tempos melhores no futuro. Tomara! Até lá, em meio a tantas tensões, poderá ser saudável gritar. Gritar longamente sob uma ponte ou dentro de um túnel. Barulho não falta no Rio de Janeiro para um “mimetismo de sons”. Poderá trazer algum alívio… No máximo, a pecha de loucos. Menos mal…
Angustiante, mas lindo! Mais uma vez, obrigada, Mauro, por esses minutos de boa leitura.
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Muito obrigado, eu, pela sua leitura.🙏
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