O tio Júlio gostava de ir ao sítio do meu avô para caçar. Punha botas, um chapéu e se embrenhava no mato com uma espingarda pendurada no ombro. A imaginação da criançada ao redor ia longe. O que ele encontraria no caminho? Que perigos? É região de cachorros-do-mato. Mas os chamávamos de lobos, dava mais medo.

Três horas depois, antes do almoço ser servido, o tio que chamávamos simplesmente de Júlio chegava com seu indisfarçável apetite. O resultado da caçada? Bem… Abóboras, taiobas, mangas, laranjas, jabuticabas, além de alfaces e jilós da horta do Sr. Grimaldi, dependendo da época do ano. 

Portanto, Júlio era uma espécie de caçador vegano, bem diferente, por exemplo, dos caçadores britânicos adeptos da caça às raposas. Estes, que já vimos em ação nos filmes, matam por esporte. Não precisam comer ou vestir a caça. Suas refeições são servidas em bandejas de prata, com pompa e circunstância. São os “nobres”. Daí, o plebeu aqui gostar tanto das ocasiões em que os bichos escapam, reagem ou distribuem chifradas precisas nos seus algozes. 

Caçadas por esporte?! Isso é cultura? Sem dúvida, má cultura, covardia e perversidade, cabendo reproduzir a menção feita recentemente por um amigo à fala do maestro português Antônio Victorino D’Almeida sobre as malditas touradas: “Se touradas são cultura, então, o canibalismo é gastronomia!” 

Por isso, o melhor exemplo a seguir é o dos tios Júlios, é o das pessoas que não matam e recusam-se a plantar discórdias e guerras. A boa caçada é aquela em que nos escondemos nos milharais, avançamos sobre campos de batatas, encurralamos pés de chuchu e, no final, conquistamos o topo de abacateiros.