Esperar, de uma forma geral, não é bom; a não ser pelos prazeres: uma festa, a viagem sonhada, a chegada de uma pessoa querida… Nestas ocasiões, às vezes, é até melhor do que o momento aguardado. São os prelúdios, os prólogos e as preliminares que encantam mais do que os movimentos subsequentes. 

Penso nisso, diretamente da sala de espera do consultório do meu dentista. Aguardo a hora de sofrer. É ruim esperar, mas sei que depois será pior. O fundo musical não ajuda. Ouço sons de brocas, de sucção e de ar comprimido. Ah! Como detesto aquele jato de ar sobre o dente no auge da aflição!

Tento ocupar a mente com as revistas espalhadas na mesa de centro. Fico sabendo quem esteve na Ilha de Caras. Mas a notícia mais instigante é sobre um deputado australiano que, no final do seu discurso no Parlamento, serviu-se de cerveja no sapato.

Acredite! É verdade – uma tradição na Austrália. O drinque é chamado de shoey, cerveja servida no shoe, sapato em inglês. Mas, a rigor, esta prática é menos nojenta do que carregar dinheiro na cueca, na meia e ocultar emendas ao orçamento público – prática comum dos parlamentares da Ilha de Vera Cruz. 

Quinze minutos depois, o doutor me manda entrar. Imagino a lâmina subindo até o alto da guilhotina. Se demorasse mais, eu daria um jeito de fugir. Mas não tem jeito. A minha execução começa.

Abro a boca, mas só ele fala. Coloca uma espécie de cachimbo de plástico no canto da minha boca, acende uma luz forte que me cega e me dá uma agulhada no céu da boca. Inferno! E como ele fala! Sobre tudo. “Hum, hum”, protesto.  “Hum, hum”, concordo. O ruído da broca aumenta. Experimento a eternidade.

“Ai! Uh!, Aaaah!” “Doeu muito?”, ele pergunta com um sarcasmo evidente. “Não”, minto descaradamente, indagando-me como em plena Era da Inteligência Artificial vivemos o período jurássico nos consultórios dentários.

Ao menos, por que não nos dão uma anestesia geral? Acordaríamos com os dentes tratados e, de brinde, com unhas e cabelos cortados… Enfim, um serviço completo. Mas, infelizmente, não é assim que funciona e não viverei para usar a pasta de dente da última geração que selará a ruína desses torturadores, o ocaso dos tiradentes.

Despeço-me do doutor com um gosto de cravo na boca e a bochecha dormente. Sem dúvida, teria sido muito melhor beber o chopp australiano no sapato, que, por aqui, quem sabe, poderíamos chamar de chuppé… Saúde!