Primeiro, a ficção, o filme Conclave, que passou no cinema recentemente. Em seguida, um conclave de verdade pela TV. Um encenado e outro realizado na magnífica Capela Sistina, no Vaticano, onde cardeais eleitores e elegíveis a papa são “confinados” entre paredes divinamente ornadas por afrescos de Michelangelo. Extra omnes! As portas se fecham até que se tome uma decisão. 

No filme, a eleição não foi rápida como a de Leão XIV, o sucessor do bom Francisco. Houve muito mistério até o desfecho; e talvez eu tenha inalado muita fumaça preta produzida por votos escritos, auditáveis e incineráveis para associar a cerimônia vaticana à peça Entre Quatro Paredes (Huis Clos), de Jean-Paul Sartre. Vá explicar!

Na peça, um homem e duas mulheres morrem e são condenados a passar a eternidade juntos no Inferno, que é simplesmente uma sala fechada reservada aos três. Mas, como não há espelhos, eles só podem se enxergar através dos olhos e do julgamento dos outros.

Delirium? A Capela Sistina não é o Inferno e os cardeais sabem que o seu encontro tem fim. Eles terão o restante de suas vidas a desfrutar urbi et orbe. Basta que escolham um papa e façam subir a fumaça branca pela chaminé da capela. A danação é permanecer para sempre ao lado de quem não cessará de julgar – uma espécie de juízo final sem fim.

Céu e Inferno… Sartre disse em Huis Clos que o Inferno são os outros; e deve ser horrível mesmo. Mas se você ainda estiver aí, diante desta crônica existencialista, prometo encerrar, imaginando apenas como é o Céu. Tudo de bom! Pudim de laranja, torta de maçã, batata frita, conversa fiada, cheiro de grama cortada, cachorro abanando o rabo, o primeiro gole do chope, cafuné, sessão da tarde, passarinho, friozinho, lareira acesa, cadeira de balanço, bons livros, bons vinhos, boa música, lua cheia e, sobretudo, amigos da vida ou da morte inteira…