
Duda, meu irmão, me lembrou do caderninho de telefones da nossa casa de 50 anos atrás. Segundo ele, eu acrescentava contatos de uma forma peculiar. Na letra A, o destaque era o Dr. Adalberto Dias Leme, personagem da novela Antônio Maria, além do próprio Antônio Maria e, mais adiante, do Arthur, com endereço na Rua Lucinda Barbosa, em Quintino. Era o Zico, cujo telefone eu havia colhido no catálogo da CTB – Companhia Telefônica Brasileira.
Há tempos, caderninhos de telefones caíram em desuso e os aparelhos fixos foram substituídos por smartphones, verdadeiras extensões das mãos do homem moderno, que fizeram nossa memória involuir e perder parte da função no processo de seleção natural. A dele, do celular, é insuperável. Mal digitamos a primeira letra do contato que buscamos, surgem diversos nomes, como uma questão de múltiplas escolhas. Um deles é precisamente o que desejamos e basta dar outro clique. E mais: a inteligência artificial dessa geringonça corrige a nossa grafia ao arquivarmos os dados e faz correções na marra. Nem sempre corretas, claro!
De qualquer forma, os inventores dessas maquinetas extraordinárias e seus programadores geniais, que habitam o Vale “Cilício”, não conhecem a minha sogra, cujos algoritmos, cultivados com uma dieta mineira impecável e um copo de vinho tinto no almoço e no jantar, são insuperáveis e indecifráveis.
Por exemplo, se o caderninho de telefones da D. Rosarinho cair nas mãos da Gestapo contemporânea, a do Tramp, seus agentes jamais obterão o contato de Jorge e de Carlos. Seus nomes, o primeiro, neto de imigrantes espanhóis e libaneses, o segundo de um imigrante português, estão bem protegidos. Os agentes trampistas nada encontrarão nas letras J e C. Eles estão na letra P, de pai do Mauro e pai do Toni! Genial! E, por via das dúvidas, mesmo que Alda ainda não seja uma ameaça para a segurança norte-americana, só seria localizada na letra M, de mãe da Tânia.
Minha sogra, portanto, é um exemplo a ser seguido até no campo da espionagem e da criptografia. Ela não se submete às novas ferramentas de busca de dados. Sua memória quase intacta comprova isso. E também é à prova de apagão, como o que recentemente aconteceu na Península Ibérica. Uma vela acesa, o caderninho de telefones e um telefone fixo para discar seriam suficientes para fazer contato conosco, caso faltasse luz. A rigor, o caderninho nem seria necessário, pois ela sabe de cor o número do telefone fixo da nossa casa, que, quando toca, sabemos, automaticamente, quem está do outro lado da linha. Trim-trim, alô!
Delícia de texto, como sempre. Sabe que muitas vezes me assusto porque, agora, só lembro de cor de 2 números de tel fixo: o da minha irmã e o de uma amiga porque ele é muito parecido com o meu antigo número, ainda do tempo da Telemar. O pior é que ainda sei de cor números hoje completamente inúteis, já que eram de conhecidos que já morreram…
CurtirCurtido por 1 pessoa