Depois de 26 anos morando no mesmo apartamento na Gávea, eu, as meninas e o Cuscuz nos mudamos. Continuaremos no bairro, porém, estrategicamente mais distantes do Talho Capixaba e de suas delícias. A rigor, neste momento, estamos ainda mais longe. A obra no novo apê não ficou pronta e fomos abrigados na casa de minha sogra, na minha velha conhecida Tijuca.

Léo Aversa, cujas crônicas são sempre deliciosas, escreveu outro dia sobre a Copacabana de tempos atrás. Pena que o Léo não tenha passado um tempo na casa de alguma tia na Tijuca para descrevê-la também e tão bem. Basicamente, o bairro é dividido em Largo da Segunda-Feira, Praça Sáenz Peña, Muda e Usina. Os mais antigos mencionam a Aldeia Campista, região limítrofe a Andaraí, Vila Isabel e Maracanã.

Nasci e vivi muitos anos na Usina, acima da fábrica de cigarros Souza Cruz e abaixo de outra de tecidos, que costumava tingir o caudaloso rio Maracanã de vermelho, verde e azul. Sem preocupações ecológicas, achava esse “rio camaleão” o máximo e imaginava que acima do encontro das águas do Rio Negro e do Amazonas havia filiais da mesma fábrica de tecidos do alto da Tijuca.

Em frente à minha casa, eu pegava o ônibus 416, Usina-Forte, da CTC – Companhia de Transportes Coletivos, para ir ao colégio, o de Aplicação. O CAp era perto do Largo da Segunda-Feira, no Morro do Turano. A bordo do ônibus, via passar o imponente Colégio São José, o Hospital da Ordem Terceira, a garagem dos bondes da Muda e, mais adiante, na esquina de Conde de Bonfim com Uruguai, havia as Casas da Banha à direita e o Gaio Marte à esquerda, demolido para dar lugar ao Edifício Illy (?) de France. Em seguida, a Lobrás e sua moderna escada rolante. Dois pontos depois, o Tijuca Tênis Clube.

No centro do bairro, triunfava a Praça Sáenz Peña com seu esguicho d’água, 10 cinemas (dez cinemas de rua!!!), o odioso Banco do Estado da Guanabara, a elegante Sloper e as cafeterias La Bella Itália e Palheta. Atrás da Praça, o Bobs servia suco de laranja com gominhos, ao lado da Galeria Marapuana, onde era possível comprar calças Lee. Mais tarde, inauguraram o Cash, ponto de encontro de cocotas.

O 416 avançava e eu via a Granado, a Mesbla, o Colégio Laffayette, onde minha mãe estudou, e mais um pouco, o Largo da Segunda-Feira, onde minha sogra nos hospeda com carinho e de onde, nos últimos dias, saio a pé para constatar o choque que é desembarcar do passado. Havia uma linha de ônibus Usina – Largo da Segunda-Feira (614), que junto com a Usina – Santa Alexandrina (616) eram chamadas de “cata mendigos”. Custavam alguns centavos a menos que as demais.

Há tempos que os cinemas da Praça não existem. O Olinda foi o primeiro a desaparecer para dar lugar a um shopping. O “progresso” também levou o Metro e o vento gelado que saía das suas portas. No seu lugar, uma loja da C&A. O Carioca virou uma Igreja Universal do Reino de Deus e o América uma farmácia. O Esqui, na galeria da Livraria Eldorado, o Art Tijuca, o Bruni, o Rio’s e um outro cujo nome me escapa, na Rua Desembargador Isidro, também sumiram do mapa da Tijuca e da vista das janelas do 416, que virou 426.

O Aplicação não está mais no Turano. O Club Municipal até que continua no mesmo lugar, próximo do Palácio do Rei, um edifício contemporâneo, de gosto bastante duvidoso, que não abriga nenhum monarca, mas um motel. E é desse modo que… acabam com uma cidade, tornando-a irreconhecível. Que a Gávea não mude tanto.

PS Esta crônica é antiga, mas me foi lembrada hoje por uma amiga querida, que não imagina o bem que me fez com sua mensagem. Obrigado, mais uma vez, Maria Helena Rouanet!