O canto do bem-te-vi é das melodias mais conhecidas entre nós. Ele canta para pedir chuva. Mas neste curto e interminável mês de fevereiro, o passarinho boa praça parece ter desistido. A chuva não vem de jeito nenhum e o calorão não dá trégua no Rio de Janeiro. Os mais paranóicos dizem que o canto do bem-te-vi também é o som dos flagrantes. Surge quando somos apanhados fazendo ou pensando algo que desejaríamos manter em segredo. Não creio. Fosse assim, suas cordas vocais não resistiriam. 

Penso nisso, ao constatar que nas ruas do Rio as buzinas das motocicletas prevalecem sobre qualquer outro som da natureza. É impressionante como essa espécie de veículo a combustão prolifera. São centenas de milhares zanzando, serpenteando e buzinando alto na Cidade Maravilhosa. Eu as chamo de “mal-te-vis”. Surgem do nada, de todos os lados, e não bastasse a poluição sonora, os acidentes de trânsito com motocicletas aumentaram exponencialmente. Não há um dia em que eu não veja um motociclista estatelado no chão e, ontem, na mesa do jantar, a conversa com minha filha nos embrulhou o estômago. 

Naquele dia, no hospital onde trabalha, o Salgado Filho, foram dez atendimentos por acidente com moto. Em um dos casos, o motoqueiro, sem capacete, ficou desfigurado e tinha fraturas expostas para todos os gostos. Ele atropelou uma mulher que descia do ônibus e subiu para a UTI – unidade de tratamento intensivo.

Portanto, não há dúvida: o canto dos “mal-te-vis” é de mau agouro. Acidentes graves com motos tornaram-se parte da rotina da Cidade e já rivalizam com as balas, que, uma vez perdidas, também encontram corpos e almas para destroçar. E o que fazem as autoridades? O de sempre: planejam a eleição seguinte, chantageiam-se mutuamente e publicam nas suas redes sociais um mundo tão ideal quanto virtual. A realidade não dá votos. Pior, não protestamos mais.